quarta-feira, 6 de abril de 2011

O menino esquisito

Existia um menino. Ele até que era esquisito, por isso apenas exisitia. Um dia cansou de apenas existir, mas era assim que sabia viver. Ninguém na escola lhe dava bola. Ninguém o escolhia para os times. Ninguém vinha lhe dizer bom dia. Quando muito o retribuíam tal dizeres. Ele via aquelas garotas, todas populares, com milhões de pessoas ao seu redor, fazendo convites e mais convites para festas, para saídas. E aqueles meninos, que todas as garotas comentavam, que todas queriam. E ele, não tinha ninguém. Ninguém o queria. Ninguém o chamava pra sair, ninguém aceitava seu convite. Os comentários das garotas eram: "Olha, amiga, aquele menino esquisito." E foi isso que eu disse a vocês no começo. Era isso o que ele era. Esquisito.

Pois bem, esse menino deixou de ser um menino. Passou a ser um moço. Virou um homem, um homem jovem. Mas não adiantava, continuava sendo o menino esquisito. Tentava se enturmar. Usava as gírias normais, sabia falar sobre tudo. Até que ele não era feio. Mas alguém, em sua infância, determinou que ele era esquisito. E não havia meios de fazê-lo normal!

Um dia, tal menino, que morava com seus avós, se trancou em seu quarto. Mas não havia reza que o fizesse sair. Ele nunca, nem tinha fechado a porta. E decidiu, nesse dia, trancá-la. Sem entender, sua pequena vózinha batia a porta e o chamava. E o menino ouvia: "Esquisito, você está bem?"; "Você não está com fome, quisitim? Há tanto tempo que não come..."

E assim, passaram algumas horas. A mãe do menino ficou sabendo do ocorrido. E ele nem quis sair pra atendê-la ao telefone. Até que seus pais saíram de sua casa, para ir até o menino. Para tentar fazê-lo sair.

Mas que menino esquisito, quem entra num quarto e se tranca e não sai por nada? E, sabem o que era pior? O menino nem respondia.

Sua mãe o implorou e ele ouviu: "Filho esquisito, sai daí! Vem comer alguma coisa, ver o sol.", "O que está acontecendo? Hm? Conta pra mamãe"! Mas nada, o menino invocou em não falar. O pai desse infeliz dizia a sua mulher: "Vamos arrombar a porta. Esse menino não pode ficar aí dentro pra sempre!" Mas a mãe disse: "Sinto muito, amor. Ele já é menino-homem. Sabe o que faz. E se assim decidiu, assim está decidido."

Enfim, passaram alguns dias. O óbito era certo. Não havia meios dele estar vivo. A não ser que fosse tão esquisito ao ponto de suportar dias e noites sem comida, bebida e sol. Finalmente arrombaram a porta. Tiraram o menino esquisito, desidratado e morto de dentro do quarto. E foram enterrá-lo.

Em seu velório e em seu enterro havia muita gente. Todos que estudaram com ele em todas as escolas que ele passou. Toda sua família e até o motorista do ônibus que ele pegava todos os dias, religiosamente. Talvez, o menino esquisito não fosse esquisito, mas assim se sentia. Afinal, todos lhe davam bom dia, todos lhe sorriam, todos lhe convidavam pra sair, menos uma pessoa. Aquela pessoa importante. Aquela especial. E por isso, nada mais pra ele tinha valor. Ninguém mais tinha valor. Apenas uma. A única que o achava realmente esquisito.

E sem mais, pra terminar, o final do fim. O fim de tudo. Em sua sepultura havia os dizeres feitos por sua mãe. Havia a seguinte escrição:
"Não o queria morto.

Mas ele quis assim.

E ele só quis tal morte, para acompanhar tal vida.
Viveu sempre num mundo... sozinho,

afogado em seus pensamentos e embrulhado por suas lágrimas.

Se assim foi a sua vida, assim queria que fosse a sua morte!"

3 comentários:

@yasminagondim disse...

cada vez que leio me surprendo mais com a sua habilidade!Parabéns!

Alexan Bellmung disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexia Toddy Delahov disse...

Muito tocante a história.
Me pareceu em certos momentos ua história meio que refletora de muitos casos verídicos...
Há uma ligação com vc tb né Ota?
Eu achei bem interessante a questão do se trancar em seus sentimentos, que não fora apenas os sentimentos, mas ele se trancou de tudo em volta, na sua solidão...
Realmente eu percebi que alguem era especial para o menino mas que por nunca ter sido notado, ele se nomeava, instintivamente como esquisito, mas as pessoas em volta também agiam, para com ele dessa mesma forma muitas vezes já que as coisas que ele esperava delas as vezes não seriam as mais possiveis devido ao contato e intimidade.
Resumindo: a morte para mim seria a fuga peo que ele não encotrou, na vida real seria uma morte de sonhos, de espectativas e se afastar do que o machuca...