terça-feira, 21 de março de 2017

Morde e assopra.

Te escrevi uma carta de amor. Rasguei a pobre coitada. Afinal, eu nem te amo. Não sei porquê a escrevi. Talvez por um momento delirei ao lembrar de você, da sua cama e de nós dois. Achei tão perfeito nosso momento, que delirei. Achei que te amava e te escrevi.

Fui revivendo "a gente", até chegar ao momento em que você me assoprou e logo me mordeu. Logo lembrei que não havia amor.

Rasguei a carta.

Hoje, te escrevo, ainda não sei por quê, pra dizer que vou viver sem você. E nem vou precisar te assoprar antes de morder.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Who can judge her?

Because she decided to live her life. Without feeling down, depressed, ill. Perhaps the thought of having someone around her bed of hospital, doing everything to please her, or everything that she needs, never passed through her mind.  We don’t even know if she likes this scene.

She can’t stand up and walk alone till the end of the runway. Can you blame her? What would you have done, on her place. We don’t know what exactly he (the doctor) said, neither what exactly she heard. Will you still judge her?

It must be painful enough to see that pity look from people to her, all the time. To have people trying to please her on her last minutes – we don’t even know when it will be.

Perhaps she decided not to live those last minutes in a bed, on her house, trying not to throw up because of the medicines. Perhaps she decided to walk till the end of the runway all by herself. And she did. We don’t know if the medicines would allow her to do it, and wouldn’t lead her to the same bed of hospital, with the same people trying to please her, and the same pity look on her way.

It is sad to see her there, trying to find a piece of air, to put it into her, without feeling tired because of it. It’s sad the look on her face. But she doesn’t regret. Because she lived her last days the way she chose.

And my question remains:

Who can judge her?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Not dismissed at all

Ouça enquanto lê...

E me basta fechar os olhos, para que nossa noite venha à minha cabeça:

Sentados na mais macia das camas, consegui seu carinho, senti sua pele macia e ganhei um beijo seu.
Nas carícias mais delicadas, nos beijos mansos, no afago e no respeito, rolamos um por cima do outro como se cair fosse impossível. E talvez fosse mesmo impossível cair ali, pois estávamos seguros um nos braços do outro. Aventureiros, desbravadores, prontos a explorar cada pedaço daquela cama, onde nos deitamos, rolamos e trocamos nossa carícias mais delicadas e os beijos mansos. 

"Espere, tenho algo a dizer!"
"O quê?"

E fui rei, fui príncipe, bem cuidado. Majestosos, reinamos sobre o nosso próprio mundo. Aquele iluminado com luz baixa, regado com suor, perturbado por gemidos e que balança no balanço do amor. E de tanto balançar e trocar carícias, esgotamo-nos na Cama Real de nosso próprio mundo.

Nus. Assim nos encontraram ao nascermos e assim nos encontrariam agora, se rompessem a porta. Assim estávamos após o gozo. E agora, a lei do nosso mundo é ter só "o teu corpo nu, junto ao meu corpo nu". E deitadinhos ali, começam os devaneios, os delírios, talvez a desacreditação de que tudo realmente tivesse acontecido.
E confesso: pra mim é a melhor parte. Delirar e devanear nu, agarrado e feliz!

"Boa noite"
"Bom dia. Me deixa te fazer feliz?"

Por que não aproveitar os últimos momentos ao seu lado, nesse dia que acorda tão feliz, com os passarinhos cantando? Or should I say, "happily"? 
Então aproveitamos e voltamos ao mundo verdadeiro. Sem mais suor ou gemidos.
Apenas a frase de uma antiga história que ecoa na cabeça:

"O dia amanheceu tão lindo. Eu 'dormi' e 'acordei' sorrindo."

domingo, 11 de dezembro de 2016

Entre um coração e um cérebro


São um coração e um cérebro que não se comunicam. Um vagueia sem saber por onde e outro pulsa sem saber por quê. Não se pensa no que se sente e não se sente o que se pensa. Isso porque não se comunicam.
Vai batendo assim, doído, apertadinho, afogando o peito, deixando o corpo inerte, jogado em qualquer lugar que passe uma brisa, passem nuvens em formato de elefante, girafa, vinho tinto e rosas vermelhas.
E imaginar tudo isso em nuvens não é um trabalho muito difícil, considerando que não há nada concreto para se pensar. Nem mesmo nada tão concreto quanto o mais abstrato dos sentimentos – o amor, que posso dizer que tenho.
E isso tudo porque não se comunicam.
“Se me dissesse por quê bate assim, saberia te dizer racionalmente ‘não vá por esse caminho.’ É isso que eu faço, mesmo.”
“Mas se me dissesse amorosamente acerca de tudo que está acontecendo ao seu redor, eu saberia bater por motivos mais importantes, com mais força. E sentiria melhor os elefantes, as girafas, as rosas vermelhas e o vinho tinto que você enxerga nas nuvens.”
Caso se comunicassem, eu poderia (talvez) levantar meu corpo e achar nas nuvens, elefantes que sejam coloridos, girafas sem pescoço, vinho branco seco e rosas amarelas – você já sentiu o cheiro das rosas amarelas?
Mas assim seria em apenas uma condição. Se se comunicassem.

Então vou me mantendo aqui, perdido no meu quarto, sentindo uma brisa, vendo o tempo passar, aguardando um diálogo abstrato e racional entre um coração e um cérebro que não conversam, que vagueiam sem saber por onde e pulsam sem saber porquê.

domingo, 15 de maio de 2016

Saudade

Ouça enquanto lê...

Essa é uma palavra doída.
Às vezes, não sai da boca; às vezes, não sai do peito.
Às vezes, conseguimos com um simples telefonema sanar tamanha dor que tal palavra traz.
Às vezes, morrer parece a solução.

Uma palavra que consegue sair do estômago e escapar pelos olhos,
pela voz,
pelas mãos...

O peito vai apertando, como se respirar fosse impossível.
Os olhos se enchem, mas nem existem mais lágrimas pra caírem.
Não se consegue parar de chorar, mas nem se quer parar de chorar.
A vontade que se tem é de se contercer e gritar.

Será que o grito é capaz de chegar ao seu ouvido?
Será que você saberia a importância que tem pra mim, caso eu pareça um louco gritando e chorando a mil quilômetros de distância, ou talvez a uma distância impossível de ser calculada?
Vou sofrer sozinho em vão, então?

Eu não sei mais terminar isso aqui.
Talvez tenha perdido um pouco a prática da escrita.

Então, aqui no fim, vou só dizer que vocês fazem muita falta.
Que de vez em quando eu choro baixinho, calado, sem nem ninguém saber...
Minha saudade é tamanha que mil anos não seriam suficientes.
E meu medo é de chegar o dia em que vou sentir uma saudade que jamais será acalentada.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sampa

Ouça enquanto lê...

Ha... É estranho como a vida brinca de "pegadinha do malandro".
Hoje (três dias atrasado), venho comentar sobre meu um ano em São Paulo. 
Confesso, Caetano, que "quando cheguei por aqui eu nada entendi das duras poesias concretas 'dessas' esquinas" tão cheias de vida, de fumaça, de cinza e de história.
É... cada uma delas tem uma história pra contar. E uma (ou umas) delas conta a minha.
A tal cidade grande que dizem ser inabitável, assustadora, onde não há amor. A tal cidade grande que eu mesmo, por mil vezes, vim a passeio e dizia "é ótima para passear, mas jamais morarei lá". "Ié-ié", disse a vida... e veio brincar, de novo, de ser malandra.
E achei, Caetano, em meio a "feia fumaça que sobe apagando as estrelas", pessoas que me disseram que existe, sim, amor em esse pê.
Me tornei o "povo oprimido nas filas" e encarei esse mundão. E não me vejo mais sem essas avenidas que fazem "algo acontecer em meu coração".
Um ano após minha chegada, novamente sem destino, sem amarras; mas mais que nunca, sem amarras. Posso ser livre, posso voar por onde quiser e sinto que vou. Batendo minhas asas de pouco em pouco, vou em direção ao mais alto dos céus, com um pouco de medo de cair, mas sabendo que eu devo seguir.
"Venha comigo", eu digo a quem converso. Olha como faz pra ser um "poeta de campos e espaços".
Mais uma vez, "gratidão" fecha meu sentimento. Impossível não reconhecer quem me trouxe até aqui, quem me manteve aqui e quem vai me levar daqui pra frente. Sempre pra frente. 
E hoje, sou mais feliz. Cheio de saudades nas malas. Cheios de memórias, que continuam fazendo parte de mim; mas sou eu.
E hoje, posso dizer "já que 'os Novos Baianos passeiam em tua garoa, 'Novos mineiros' te podem curtir numa boa.'"

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

B612

Ouça enquanto lê

Resolvi cair nessa terra de ninguém. Sozinho estava e resolvi cantar.
Fui cantando e cantarolando sempre os mesmos versos que estavam em minha cabeça.
Não sei se mentiram pra mim, mas havia mais gente nessa terra.
E por causa dos repetidos versos, encontrei alguém.

Alguém de carne e de osso,
de braços e de abraços.
Alguém com boca
e olhos que me olham como se meus versos o lembrassem das vidas boas em outros planetas onde não crescem Baobás.
De carne e de osso, porque quase não acreditei que era real.
Dos abraços fortes que me protegem de toda essa gente que mora nessa terra de ninguém.
Dos braços, anatomicamente perfeitos, onde eu simplesmente encaixo.
E da boca que me arrepia quando toca a minha.

E dessa mesma boca que tanto me beija, veio a promessa de em oito segundos me beijar o mesmo número que eu contasse das estrelas do céu.
Sentei-me onde não há luz, na terra de ninguém (um pouco difícil de achar, mas consegui), olhei para o alto e comecei:
1, 2, 3...
E fui contando, sem perder nenhum pontinho luminoso que olhava pra mim.
Afinal, cada pontinho daquele é como se sorrisse para mim.
E, de repente, quando estava em 612 estrelas, uma se caiu, e eu perdi as contas.