segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lorde

Ouça, enquanto lê...

Andava por um vale verde
com árvores frondosas dançantes.
Balançávamos, as árvores e eu, ao som da brisa que passava.
Fui caminhando até avistar uma fonte.
Tinha sede. De água e de amor.
Inclinei-me sob a estátua marmorizada.

Quase afoguei-me, no susto,
quando, de repente, a estátua daquela princesa estava a me dar bom dia.
E a me dizer que eu deveria olhar pra cima, se quisesse achar o que procurava.

Andei mais um pouco e vi esquilos brincando nos galhos de árvore.
Cansado, deitei-me num banco a contemplar o céu.

Surgiu, então, um enorme pássaro.
Lindo, com olhos vermelhos de rubi;
seu bico amarelo que sorria o mais belo sorriso;
com algumas cicatrizes prateadas e outras douradas;
e suas penas laranjas, como se ardesse inteiro em chamas,
mas isso não o parecia incomodar.

Veio voando, mais macio que uma tempestade.
E veio em revoada de volta pra mim,
mesmo sem nunca ter estado ali.

Eu poderia estar apavorado,
mas as estrelas de seus olhos diziam que não precisava.

Me acalmei e me entreguei.

E se alguém, hoje, me procurar e não me encontrar,
com toda certeza, sabe que estou buscando o vale, onde posso agradecer à princesa de mármore.
E onde posso voar,
com o coração iluminado
pelo meu dançante pássaro vermelho, laranja e amarelo!

Baseado em Lorde - Yellow Flicker Beat, que também é uma boa sugestão para ouvir enquanto lê. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Nós dois em cinco capítulos

Ouça, enquanto lê...

Capítulo um

Eu bati a porta, você abriu.
Entrei.
Me sentei no sofá.
Conversamos.
Nos conhecemos.
Rimos bastante.
Quando vimos, já passava das quatro da manhã do dia seguinte.
Me ajeitei ali mesmo, até que clareou e fui embora.


Capítulo dois

Joguei pedrinhas contra a janela.
Você sorriu ao me ver e abriu a porta.
Entrei.
Sentamos na cadeira da cozinha.
Fiz um belo Tiramisu, só para nós dois.
Dançamos aquele bolero, enquanto bebemos algumas cervejas que trouxera.
Ficamos bêbados. Você adormeceu no tapete.
Arrumei toda a bagunça da cozinha e fui embora.


Capítulo três

Toquei a campainha. Você não abriu.
Pulei a janela que estava aberta.
Arrumei a casa inteira.
Separei suas roupas de frio e de calor; as de festa e as casuais.
Desfiz as malas de sua última viagem.
Me encostei no sofá e te esperei chegar.
Você chegou, disse "oi". E foi se deitar em sua cama.
Eu sussurrei, sozinho, "boa noite" e fui embora.


Capítulo quatro

Cheguei à porta, com horário marcado.
Você atendeu.
Entrei.
Você foi tomar banho.
Comi umas bolachas que estavam pelo balcão.
Seu táxi chegou, você partiu.
Eu engoli as bolachas e fui embora.


Capítulo cinco

Eu fui até sua casa e fui embora.


*Baseado em Autobiography in five chapters, de Portia Nelson.

terça-feira, 21 de março de 2017

Morde e assopra.

Te escrevi uma carta de amor. Rasguei a pobre coitada. Afinal, eu nem te amo. Não sei porquê a escrevi. Talvez por um momento delirei ao lembrar de você, da sua cama e de nós dois. Achei tão perfeito nosso momento, que delirei. Achei que te amava e te escrevi.

Fui revivendo "a gente", até chegar ao momento em que você me assoprou e logo me mordeu. Logo lembrei que não havia amor.

Rasguei a carta.

Hoje, te escrevo, ainda não sei por quê, pra dizer que vou viver sem você. E nem vou precisar te assoprar antes de morder.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Who can judge her?

Because she decided to live her life. Without feeling down, depressed, ill. Perhaps the thought of having someone around her bed of hospital, doing everything to please her, or everything that she needs, never passed through her mind.  We don’t even know if she likes this scene.

She can’t stand up and walk alone till the end of the runway. Can you blame her? What would you have done, on her place. We don’t know what exactly he (the doctor) said, neither what exactly she heard. Will you still judge her?

It must be painful enough to see that pity look from people to her, all the time. To have people trying to please her on her last minutes – we don’t even know when it will be.

Perhaps she decided not to live those last minutes in a bed, on her house, trying not to throw up because of the medicines. Perhaps she decided to walk till the end of the runway all by herself. And she did. We don’t know if the medicines would allow her to do it, and wouldn’t lead her to the same bed of hospital, with the same people trying to please her, and the same pity look on her way.

It is sad to see her there, trying to find a piece of air, to put it into her, without feeling tired because of it. It’s sad the look on her face. But she doesn’t regret. Because she lived her last days the way she chose.

And my question remains:

Who can judge her?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Not dismissed at all

Ouça enquanto lê...

E me basta fechar os olhos, para que nossa noite venha à minha cabeça:

Sentados na mais macia das camas, consegui seu carinho, senti sua pele macia e ganhei um beijo seu.
Nas carícias mais delicadas, nos beijos mansos, no afago e no respeito, rolamos um por cima do outro como se cair fosse impossível. E talvez fosse mesmo impossível cair ali, pois estávamos seguros um nos braços do outro. Aventureiros, desbravadores, prontos a explorar cada pedaço daquela cama, onde nos deitamos, rolamos e trocamos nossa carícias mais delicadas e os beijos mansos. 

"Espere, tenho algo a dizer!"
"O quê?"

E fui rei, fui príncipe, bem cuidado. Majestosos, reinamos sobre o nosso próprio mundo. Aquele iluminado com luz baixa, regado com suor, perturbado por gemidos e que balança no balanço do amor. E de tanto balançar e trocar carícias, esgotamo-nos na Cama Real de nosso próprio mundo.

Nus. Assim nos encontraram ao nascermos e assim nos encontrariam agora, se rompessem a porta. Assim estávamos após o gozo. E agora, a lei do nosso mundo é ter só "o teu corpo nu, junto ao meu corpo nu". E deitadinhos ali, começam os devaneios, os delírios, talvez a desacreditação de que tudo realmente tivesse acontecido.
E confesso: pra mim é a melhor parte. Delirar e devanear nu, agarrado e feliz!

"Boa noite"
"Bom dia. Me deixa te fazer feliz?"

Por que não aproveitar os últimos momentos ao seu lado, nesse dia que acorda tão feliz, com os passarinhos cantando? Or should I say, "happily"? 
Então aproveitamos e voltamos ao mundo verdadeiro. Sem mais suor ou gemidos.
Apenas a frase de uma antiga história que ecoa na cabeça:

"O dia amanheceu tão lindo. Eu 'dormi' e 'acordei' sorrindo."

domingo, 11 de dezembro de 2016

Entre um coração e um cérebro


São um coração e um cérebro que não se comunicam. Um vagueia sem saber por onde e outro pulsa sem saber por quê. Não se pensa no que se sente e não se sente o que se pensa. Isso porque não se comunicam.
Vai batendo assim, doído, apertadinho, afogando o peito, deixando o corpo inerte, jogado em qualquer lugar que passe uma brisa, passem nuvens em formato de elefante, girafa, vinho tinto e rosas vermelhas.
E imaginar tudo isso em nuvens não é um trabalho muito difícil, considerando que não há nada concreto para se pensar. Nem mesmo nada tão concreto quanto o mais abstrato dos sentimentos – o amor, que posso dizer que tenho.
E isso tudo porque não se comunicam.
“Se me dissesse por quê bate assim, saberia te dizer racionalmente ‘não vá por esse caminho.’ É isso que eu faço, mesmo.”
“Mas se me dissesse amorosamente acerca de tudo que está acontecendo ao seu redor, eu saberia bater por motivos mais importantes, com mais força. E sentiria melhor os elefantes, as girafas, as rosas vermelhas e o vinho tinto que você enxerga nas nuvens.”
Caso se comunicassem, eu poderia (talvez) levantar meu corpo e achar nas nuvens, elefantes que sejam coloridos, girafas sem pescoço, vinho branco seco e rosas amarelas – você já sentiu o cheiro das rosas amarelas?
Mas assim seria em apenas uma condição. Se se comunicassem.

Então vou me mantendo aqui, perdido no meu quarto, sentindo uma brisa, vendo o tempo passar, aguardando um diálogo abstrato e racional entre um coração e um cérebro que não conversam, que vagueiam sem saber por onde e pulsam sem saber porquê.

domingo, 15 de maio de 2016

Saudade

Ouça enquanto lê...

Essa é uma palavra doída.
Às vezes, não sai da boca; às vezes, não sai do peito.
Às vezes, conseguimos com um simples telefonema sanar tamanha dor que tal palavra traz.
Às vezes, morrer parece a solução.

Uma palavra que consegue sair do estômago e escapar pelos olhos,
pela voz,
pelas mãos...

O peito vai apertando, como se respirar fosse impossível.
Os olhos se enchem, mas nem existem mais lágrimas pra caírem.
Não se consegue parar de chorar, mas nem se quer parar de chorar.
A vontade que se tem é de se contercer e gritar.

Será que o grito é capaz de chegar ao seu ouvido?
Será que você saberia a importância que tem pra mim, caso eu pareça um louco gritando e chorando a mil quilômetros de distância, ou talvez a uma distância impossível de ser calculada?
Vou sofrer sozinho em vão, então?

Eu não sei mais terminar isso aqui.
Talvez tenha perdido um pouco a prática da escrita.

Então, aqui no fim, vou só dizer que vocês fazem muita falta.
Que de vez em quando eu choro baixinho, calado, sem nem ninguém saber...
Minha saudade é tamanha que mil anos não seriam suficientes.
E meu medo é de chegar o dia em que vou sentir uma saudade que jamais será acalentada.