sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A história da pobre velha


Como a rosa que brota da terra e se abre ao sol, à chuva.
Brota do ventre, a pianista e encanta os pássaros e os grilos.
Usando suas mãos de uma maneira que ninguém precisou ensinar.
E foi conquistando seu espaço e mostrando seu amor.

O amor que vem de dentro, passa pelos braços, e se reflete a cada vez que seu dedo bate a tecla do piano, seu grande amor.
Sempre o acompanhando, desde o dia que se encontraram.
Nos momentos mais difíceis, nos mais tristes, nos mais felizes.
Nos momentos que não eram momentos, que eram ordinários.

Quando as lágrimas rolavam, por paixões sofridas,
por sorrisos falsos de malfeitores,
por conquistas limpas. 
Sempre juntos.

Decidida, declarou seu amor, a pianista, ao seu companheiro, o piano.
E dele, pra sempre foi, como pra sempre fora. 
Era ele que ouvia sobre seu dia, mesmo.
Era ele que conhecia o que havia dentro dela, de qualquer forma.

Por que não?

Por vários anos, a pianista se escondeu atrás de seu amante.
Uma vez que a liberdade lhe havia sido tirada, 
por aqueles que se julgam melhores e governam o país,
e querem governar o mundo.

Após a guerra, 
estavam juntos de novo, 
e se amavam, como nunca antes.
Venceram essa batalha.

Mais tarde, alguns anos depois,
enfrentou um tumor cerebral.
E durante todo seu tratamento, 
internada num hospital anti-musical.

Dizia todos os dias pra si,
"estou indo, meu amor".
E de lá saiu, ao encontro daquele que sempre a preencheu.
E foi ele, quem ela viu primeiro, depois de tanto tempo.

E viu por algum tempo,
até que sua visão ficasse comprometida.
A pianista não podia desistir agora.
E pensou:

"Eu preciso, apenas das mãos
e do coração.
Enquanto eu tiver, mãos e coração,
o meu amor, eu não deixo."

E aprendeu a não precisar ver seu amor pra saber onde eles estava.
E ela descobriu que ele ainda era capaz de entendê-la
e percebê-la
e decifrá-la.

E prometeu a seu marido,
"mesmo na escuridão,
eu te encontrarei."
Bom, não foi permanente, e eles se viram novamente.

Vencedora de uma guerra, 
vencedora de uma doença,
lanterna na escuridão,
vendedora de sonhos.

Fez de tudo pra estar sempre com seu amor.
Até que...
... coitada, idosa.
Há quantos anos vive mesmo?

Acredito que nem ela saiba...
porque a cabeça já não funciona.
Já não sabe muitas coisas mais,
mas conhece, ainda seu amor.

Infelizmente, as mãos começaram a não obedecer,
doíam quando paradas,
doíam quando mexiam.
"Reumatismo", disse o doutor.

Insistiu a pobre velha.
Mas não dava mais.

Deixou uma rosa vermelha 
sobre o cadáver quente de seu amor.
Alisou-o,
chorando as patacovas que já não tinha mais.

Entendeu que era seu fim,
e que nada mais podia fazer pra tê-lo de volta.
Era sua hora.
Assim...

Naquele dia, choveu.
Se vestiu de preto.
Tocou sua última canção,
e se despediu.

E junto à rosa vermelha,
deixou a carta que alguém datilografara.
Dizia:
"Muito obrigada, meu grande, primeiro e verdadeiro amor."

Fechou o caixão
e o enterrou.
O piano, nunca mais tocou.
Ficou só, a pianista.

E no seu epitáfio, escrito:
"Se partires amanhã, me ama hoje.
Se partes hoje, obrigada pelo ontem.
Se partiste..."

E ficou só, a pianista.
E o piano... nunca mais tocou.

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