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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A porta que eu abri.


Ouça, enquanto lê...

Havia uma porta.
No meio do nada, uma porta.
Tudo era escuridão e vazio ao seu redor.
Apenas uma porta.

Havia uma pequena escada que dava nesta porta.
Uns três degraus, eu acho. Nunca me atentei a contá-los.
A maçaneta era redonda.
E o batente, lindamente esculpido.

Não consegui mais vê-la fechada.
Abri.
O que há tanto tempo esteve trancada.
Abri.

No dia que você bateu a porta e passou a chave, eu escorreguei por ela. Chorei sozinho e copiosamente. Solucei, sem ninguém me ver. Porque é tudo escuro.
Dias se passaram e eu me levantei. Alisei a porta, como se acariciasse seus cabelos, seu rosto, sua barba.
Contei as ranhuras, como se eu pudesse contar as pintas de suas costas ou de seus ombros.
Colocava a mão sobre a maçaneta, sem rodá-la.
Olhava pela fechadura e checava por debaixo da porta.
Passos do outro lado? Bilhetes escondidos?
Qualquer sinal de que estava, então, aberta.

Semanas incontáveis foram necessárias, até que eu saísse das escadas.
Até que eu abandonasse meu posto, na escuridão.

Sequei o rosto e saí.

Virava e mexia, passeava pela porta.
Quem sabe haveria um bilhetinho esquecido por ali?

Os cenários foram mudando. E eu já não sabia mais se você tinha a chave ou se a tinha perdido. Ou, se por acaso, eu, bêbado, havia trocado as fechaduras, sem te contar.
Como você abriria a porta?
Então fiz uma cópia da chave. E passei pela fresta embaixo dela.
A verdade é que eu mesmo a abri.
Abri só um pouquinho e a deixei encostada.

Você a escancarou e me viu ali.
Meu coração palpitou, mas eu tive controle sobre tudo.
Tudo continua uma grande escuridão e eu não consigo enxergar o que há do lado daí.
Eu poderia trazer lanternas, trocar as lâmpadas, ou simplesmente entrar.
Mas acho que eu nem quero.

Só precisava da porta aberta e meia hora de papo.
Desculpe se durante a conversa eu começar a novamente olhar pela fresta ou contar as ranhuras da porta.
São velhos hábitos, que eu não entendo muito bem.

Uma pena não ter tido nenhuma carta no chão, mesmo com tanto tempo passado.
Uma pena maior não podermos conversar de verdade por meia hora.

Só não se vá de novo.

Mesmo que nunca mais venhamos à porta, vamos combinar de deixá-la aberta.
É mais confortável aceitar que não há nada do outro lado, quando eu vejo somente a escuridão através da porta, do que me questionar se foi o vento que bateu ou se foi você que passou a chave de novo.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Só pra encerrar.

Oi. 
Eu vim te dizer adeus.
Sonhei com você, há alguns dias. 
Depois de tanto tempo, você me visitou de novo. 
Empasmado, fiquei, quando reparei que podia ver seu rosto.
Achei que já tinha me esquecido dele.
Mas eu o vi, e ele sorria. 
Já não era pra mim, e eu já nem queria que fosse.
Ao final do sonho, você se vai, ao longe, acompanhado e aparentemente feliz.
Eu fico.
Comigo mesmo e cercado de verdadeiro amor.
Te observo distante, pensando "eu fui eu mesmo".

Acordei nesse dia, entendendo que você se foi. 
Mas que dessa vez, se despediu.

Hoje, alguém que estava comigo usava o teu perfume. 
Ou talvez algum muito similar.
Passei horas sentindo o teu cheiro. 
Lembrei que era bom.
E percebi que não doeu.
Meu coração não se acelerou, meu estômago não se revirou.
Não tive nenhum momento de surdez ou visão turva.
Foi naturalmente um dia qualquer.

Percebi que já posso te dizer adeus.
Mesmo que eu permaneça sempre aqui, junto da minha família, como uma vez te prometi.

E então, é isso.
É o que me resta dizer.

Adeus!

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Sobre os trilhos

Caminhando com a alma embriagada de felicidade, me tenho como par, nessa valsa incessante e findável. Piso no contratempo, respiro em suas pausas, faço minhas piruetas no clímax que recebo da melodia vital que ecoa em mim.
Vou me equilibrando nos trilhos. Pé ante pé. Sem a menor pista do meu destino, que ilusoriamente, eu mesmo traço. 
Afinal, o maquinista não sou eu. Mas eu escolho se aguardo na estação ou se sigo bailando sobre os trilhos, até chegar o próximo trem!

terça-feira, 26 de abril de 2022

Feito de mim

E eu me perdi. 
Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, eu me perdi. 
Fui deixado, menino, às margens de mim mesmo. Sem saber se podia me adentrar, aprofundar-me em mim.
Molhei meus pés sem saber se lavava as mãos. Molhei as mãos sem poder lavar o rosto. 
O rosto sujo, cujo reflexo busquei na superfície desse rio que sou. E não encontrei.

Pronto para desaguar-me ao mar. Mas não fui. Não me deixei ir. Não me deixei ser.
Parado ali, na desculpa estapafúrdia do "nada", me torturei. Nada sei, nada sinto. Tenho nada. Sou nada.

Encontrei-me refletido e eu tinha a cara limpa. Pudemos conversar.
E ensinei-me. Na dor, mas ensinei-me. Vivi minha ditadura, camuflada em felicidade constante. Turbilhonando-me sentimentos, vozes, pensamentos, ensinamentos, vaos e inválidos. Invalidados.
O nada.
E na dor de ensinar-me e de aprender-me, fui. Quando todos já eram.
Pude ser. Quando deixei-me ser.

E hoje, sendo, sento à margem de mim, e vejo meu rio cursar, curveando por onde quer ir. Molho meus pés, nas minhas águas. E os tornozelos. As pernas. Mergulho-me. Afundo-me. Adentro-me e aprofundo-me. 
Que delícia ser. Enquanto percebo que os outros ainda nem são. Ainda buscam ser.
Que delícia já não camuflar-me mais em felicidade constante, mas preencher meus nadas com ela.
Ocupar-me comigo mesmo. Em observar-me, em ensinar-me com amor, em cursar meu rio e deixar-me desaguar no mar que também sou eu. Porque e feito de mim. Águas novas e águas passadas. Eu.

E agora, posso sentar-me à minha baía e observar o sol a nascer, as nuvens a passar, os pássaros a cantar. Posso chorar ou sorrir, cantar ou dançar, observando que o amanhã sempre vem. E há sempre uma nova oportunidade de encontrar-me. Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, encontrar-me. Sentado, menino, às margens de mim. Apenas sendo.

Família

Onde se encontra um verdadeiro lar. É refúgio, carinho, atenção e puxão de orelha. 
É risada, é abraço, é colo, é choro.
Onde o amor brota. Onde aprendemos o que é o amor.
Onde estamos seguros, mesmo que com medo. E podemos ser exatamente quem e como somos. 
É aquilo que dói na distância. E não muda nada, não importando o tempo que passe. Família sempre será Família. 
Seu signnificado terá entradas intermináveis no dicionário. E seu sentido transcende a conexão sanguínea, mas cria pontes floridas, construídas sobre os pilares do amor.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Frenesi

Me balanço.
Não há mais nada ao meu redor. Nem dentro. Nem fora.
Existe eu. Existe o movimento do meu corpo. E o movimento que eu acredito que ele faz. E existe a liberdade. 
De ser, de estar, de balançar.
Livre.
Livrado.
Liberto.
Num transe incalculável, onde eu não sou mais eu.
Ou melhor, onde sou exatamente eu.
Transcendente.
E eu me balanço.
E eu me sou.
O ruído de fora, que me move os pés, é o ruído de dentro.
E vai caminhando por mim, até que eu interrompo esse frenesi, no medo de ser tão eu que me exploda, ou que voe e não saiba mais voltar.
Eu abro os olhos e ainda piso o chão.
Ainda estou inteiro.
Mas todos veem minhas asas abertas.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Eu não vou lembrar seu nome.

Às vezes me pego pensando se deveria ter te deixado voar. Me parece que fiz tudo o que podia. Falei todas as coisas que eu precisava. Todas as que me engasgavam. Todas que me vieram à cabeça, por tanto tempo, e que eu remoí, dentro de mim. Como um gado ruminante, a ruminar todo esse sentimento que um dia eu chamei de amor. Que talvez ainda o chame, não sei bem. 

E de todas as coisas que vivemos, cada minuto de felicidade e de tristeza e de amor e de ódio, só uma me traz paz. O dia em que despejei sobre você todas as palavras que ruminei. E por isso, eu te prometo. Por mais difícil que seja, eu te prometo: Eu não vou lembrar seu nome.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Simplesmente, assim

Ouça, enquanto lê.

Querido diário,

Hoje, sonhei com ele.
Ah, como foi bom.
Eu me sentia bem inseguro ainda. Agia com dedo para não feri-lo, não machucá-lo. Não afastá-lo de mim.
Mas estava tão gostoso.
Eu não podia deixar de sorrir.
Com meus olhos, minha boca, meu corpo, eu sorria.
Sorria até com a alma.

Ele estava junto comigo.
Eu deitei sobre seu peito.
Em outro momento, deitamos de lado, abraçados.
Minha mão agarrando o peito dele.

Era tudo o que eu queria.

Mas, no fim, eu acordei.
Eu juro que rezei pra dormir de novo e voltar para o mesmo sonho.
Não deu.

De novo, eu me vejo sem ele.

E foi isso.
De maneira bem direta.
Um desabafo superficial, que carrega sentimentos bem profundos.
Sem meus devaneios, delirios.
Sem jogo de palavras.
Sem todas aquelas sentimentalidades ou ênfases poéticas que eu gosto de escrever.
Assim. Simplesmente, assim.

E é como diz a música:
"Te tenho em sonhos. E somente eu sei  o quanto eu esperei. Vem me tirar dessa prisão de somente te ter se eu sonhar outra vez."

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Léxico

Ouça, enquanto lê...

Uma vez, eu li uma frase que dizia "a língua portuguesa tem 435.000 palavras. E com nenhuma delas, eu consegui te fazer ficar". 
Me doeu, o coração, quando li. As palavras que sempre mexeram comigo e que sempre pensei serem minhas amigas, não foram suficientes pra te fazer ficar. E posso dizer que tentei até pegar algumas emprestadas de outras línguas. Apesar de estarmos falando de palavras, sei que lutei muito, sei que agi muito. Provavelmente, errei muito. 
Me peguei pensando que talvez eu devesse até ter inventado uma ou duas palavras novas e quem sabe, assim, você não iria embora. 
Mas, agora, no fim, acredito que isso não te faria ficar. Apenas serviria pra eu dizer que de 435.001 palavras, nenhuma delas te fez ficar. Ou 435.002 ou 3, ou quantas palavras mais eu tivesse inventado. 
Fica? 
Eu passo um café pra nós dois. 
Eu te faço um cafuné.
Você gostava tanto de mim. Não consigo acreditar que tudo se foi mesmo. Será que não sobrou um pouquinho de sentimento aí no seu coração? 
No meu, sobrou um buquê inteiro de sentimentos, pintados com o mesmo amarelo das rosas que te dei. 
Mas a cada dia, parece que me cai um caco novo, ao chão. 
E em quantos cacos devo partir meu coração até ter você de volta? Qual parte de mim te afastou assim? Te arremessou pra longe? Foi meu café muito doce? Ou o gosto da bala em minha boca, quando te beijei? Algum dos meus cacos te furou? 
Fica.
Volta!
Me ajuda a colar tudo. E fazer bater novamente, o coração que um dia eu te dei.

terça-feira, 7 de maio de 2019

O vazio da lembrança

Ouça enquanto lê.

E meus olhos resistem. Não querem se fechar, não permitem que eu durma, enquanto não te tenho ao meu lado. Fico com meus pensamentos rondando por onde passamos e aonde chegamos. Revivendo memórias incríveis, momentos tão felizes, tão importantes, tão puros. Sinto meu corpo estremecer. Meu corpo sente a falta do seu. Meu ouvido busca a sua voz. E minha esperança te espera no portão, todos os dias. Meu sorriso se ensaia em frente ao espelho antes de sair de casa, para a hora que você chegar. Tento dizer a eles que não é hora ainda. Mas nem eu mesmo acredito nas minhas palavras. No fim, eu mesmo os encorajo a buscarem sua voz, te esperarem no portão ou se ensaiarem em frente ao espelho. Eu mesmo escolho a roupa que vestirão, os lembro de pôr um casaco e de pegar um guarda-chuva.

Mas me preparo em vão, todos os dias. E o que me agoniza e me conforta são mesmo os pensamentos e as memórias que me cercam. São eles que me fazem companhia (que meus travesseiros não me ouçam). Abraço-os – os pensamentos e os travesseiros – na esperança de te encontrar, procurando seu cheiro. Gosto de brincar que é nas suas pernas que estou dando nó. Ou que é no seu peito que estou deitando a minha cabeça. Chego até a acariciar um deles, pensando que poderia te fazer um cafuné.

Rezo todas as noites (ou a toda hora) por um momento melhor. Onde eu não seja velho, mas ainda seja jovem, com toda vontade de viver. E assim possa viver junto com você. Oro pela nossa felicidade. Que não sejamos cordeiros em época de caça. Mas que sejamos estrelas altas, lindas, brilhantes, que iluminam a escuridão. Que sejamos como as araras, a voar em pares. Que meus ouvidos encontrem a sua voz. Que seus olhos encontrem o meu sorriso. Que minha esperança te encontre no portão. E que meu corpo esbarre no seu.

Por fim, durante a minha oração, meus olhos que não aguentam mais, se desabam. Interrompem qualquer busca por você. Afastam todos os pensamentos e memórias lindas. E me deixam o vazio da lembrança, sem cheiro, sem cor, sem sorriso. Debulham-se. Minhas forças psíquicas, físicas e emocionais se esgotam. E antes mesmo que eu termine a minha oração e bem antes que eu te encontre, de tanto escorrerem, meus olhos, finalmente se fecham, e eu durmo.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lorde

Ouça, enquanto lê...

Andava por um vale verde
com árvores frondosas dançantes.
Balançávamos, as árvores e eu, ao som da brisa que passava.
Fui caminhando até avistar uma fonte.
Tinha sede. De água e de amor.
Inclinei-me sob a estátua marmorizada.

Quase afoguei-me, no susto,
quando, de repente, a estátua daquela princesa estava a me dar bom dia.
E a me dizer que eu deveria olhar pra cima, se quisesse achar o que procurava.

Andei mais um pouco e vi esquilos brincando nos galhos de árvore.
Cansado, deitei-me num banco a contemplar o céu.

Surgiu, então, um enorme pássaro.
Lindo, com olhos vermelhos de rubi;
seu bico amarelo que sorria o mais belo sorriso;
com algumas cicatrizes prateadas e outras douradas;
e suas penas laranjas, como se ardesse inteiro em chamas,
mas isso não o parecia incomodar.

Veio voando, mais macio que uma tempestade.
E veio em revoada de volta pra mim,
mesmo sem nunca ter estado ali.

Eu poderia estar apavorado,
mas as estrelas de seus olhos diziam que não precisava.

Me acalmei e me entreguei.

E se alguém, hoje, me procurar e não me encontrar,
com toda certeza, sabe que estou buscando o vale, onde posso agradecer à princesa de mármore.
E onde posso voar,
com o coração iluminado
pelo meu dançante pássaro vermelho, laranja e amarelo!

Baseado em Lorde - Yellow Flicker Beat, que também é uma boa sugestão para ouvir enquanto lê. 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Nós dois em cinco capítulos

Ouça, enquanto lê...

Capítulo um

Eu bati a porta, você abriu.
Entrei.
Me sentei no sofá.
Conversamos.
Nos conhecemos.
Rimos bastante.
Quando vimos, já passava das quatro da manhã do dia seguinte.
Me ajeitei ali mesmo, até que clareou e fui embora.


Capítulo dois

Joguei pedrinhas contra a janela.
Você sorriu ao me ver e abriu a porta.
Entrei.
Sentamos na cadeira da cozinha.
Fiz um belo Tiramisu, só para nós dois.
Dançamos aquele bolero, enquanto bebemos algumas cervejas que trouxera.
Ficamos bêbados. Você adormeceu no tapete.
Arrumei toda a bagunça da cozinha e fui embora.


Capítulo três

Toquei a campainha. Você não abriu.
Pulei a janela que estava aberta.
Arrumei a casa inteira.
Separei suas roupas de frio e de calor; as de festa e as casuais.
Desfiz as malas de sua última viagem.
Me encostei no sofá e te esperei chegar.
Você chegou, disse "oi". E foi se deitar em sua cama.
Eu sussurrei, sozinho, "boa noite" e fui embora.


Capítulo quatro

Cheguei à porta, com horário marcado.
Você atendeu.
Entrei.
Você foi tomar banho.
Comi umas bolachas que estavam pelo balcão.
Seu táxi chegou, você partiu.
Eu engoli as bolachas e fui embora.


Capítulo cinco

Eu fui até sua casa e fui embora.


*Baseado em Autobiography in five chapters, de Portia Nelson.

terça-feira, 21 de março de 2017

Morde e assopra.

Te escrevi uma carta de amor. Rasguei a pobre coitada. Afinal, eu nem te amo. Não sei porquê a escrevi. Talvez por um momento delirei ao lembrar de você, da sua cama e de nós dois. Achei tão perfeito nosso momento, que delirei. Achei que te amava e te escrevi.

Fui revivendo "a gente", até chegar ao momento em que você me assoprou e logo me mordeu. Logo lembrei que não havia amor.

Rasguei a carta.

Hoje, te escrevo, ainda não sei por quê, pra dizer que vou viver sem você. E nem vou precisar te assoprar antes de morder.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Who can judge her?

Because she decided to live her life. Without feeling down, depressed, ill. Perhaps the thought of having someone around her bed of hospital, doing everything to please her, or everything that she needs, never passed through her mind.  We don’t even know if she likes this scene.

She can’t stand up and walk alone till the end of the runway. Can you blame her? What would you have done, on her place. We don’t know what exactly he (the doctor) said, neither what exactly she heard. Will you still judge her?

It must be painful enough to see that pity look from people to her, all the time. To have people trying to please her on her last minutes – we don’t even know when it will be.

Perhaps she decided not to live those last minutes in a bed, on her house, trying not to throw up because of the medicines. Perhaps she decided to walk till the end of the runway all by herself. And she did. We don’t know if the medicines would allow her to do it, and wouldn’t lead her to the same bed of hospital, with the same people trying to please her, and the same pity look on her way.

It is sad to see her there, trying to find a piece of air, to put it into her, without feeling tired because of it. It’s sad the look on her face. But she doesn’t regret. Because she lived her last days the way she chose.

And my question remains:

Who can judge her?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Not dismissed at all

Ouça enquanto lê...

E me basta fechar os olhos, para que nossa noite venha à minha cabeça:

Sentados na mais macia das camas, consegui seu carinho, senti sua pele macia e ganhei um beijo seu.
Nas carícias mais delicadas, nos beijos mansos, no afago e no respeito, rolamos um por cima do outro como se cair fosse impossível. E talvez fosse mesmo impossível cair ali, pois estávamos seguros um nos braços do outro. Aventureiros, desbravadores, prontos a explorar cada pedaço daquela cama, onde nos deitamos, rolamos e trocamos nossa carícias mais delicadas e os beijos mansos. 

"Espere, tenho algo a dizer!"
"O quê?"

E fui rei, fui príncipe, bem cuidado. Majestosos, reinamos sobre o nosso próprio mundo. Aquele iluminado com luz baixa, regado com suor, perturbado por gemidos e que balança no balanço do amor. E de tanto balançar e trocar carícias, esgotamo-nos na Cama Real de nosso próprio mundo.

Nus. Assim nos encontraram ao nascermos e assim nos encontrariam agora, se rompessem a porta. Assim estávamos após o gozo. E agora, a lei do nosso mundo é ter só "o teu corpo nu, junto ao meu corpo nu". E deitadinhos ali, começam os devaneios, os delírios, talvez a desacreditação de que tudo realmente tivesse acontecido.
E confesso: pra mim é a melhor parte. Delirar e devanear nu, agarrado e feliz!

"Boa noite"
"Bom dia. Me deixa te fazer feliz?"

Por que não aproveitar os últimos momentos ao seu lado, nesse dia que acorda tão feliz, com os passarinhos cantando? Or should I say, "happily"? 
Então aproveitamos e voltamos ao mundo verdadeiro. Sem mais suor ou gemidos.
Apenas a frase de uma antiga história que ecoa na cabeça:

"O dia amanheceu tão lindo. Eu 'dormi' e 'acordei' sorrindo."

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

B612

Ouça enquanto lê

Resolvi cair nessa terra de ninguém. Sozinho estava e resolvi cantar.
Fui cantando e cantarolando sempre os mesmos versos que estavam em minha cabeça.
Não sei se mentiram pra mim, mas havia mais gente nessa terra.
E por causa dos repetidos versos, encontrei alguém.

Alguém de carne e de osso,
de braços e de abraços.
Alguém com boca
e olhos que me olham como se meus versos o lembrassem das vidas boas em outros planetas onde não crescem Baobás.
De carne e de osso, porque quase não acreditei que era real.
Dos abraços fortes que me protegem de toda essa gente que mora nessa terra de ninguém.
Dos braços, anatomicamente perfeitos, onde eu simplesmente encaixo.
E da boca que me arrepia quando toca a minha.

E dessa mesma boca que tanto me beija, veio a promessa de em oito segundos me beijar o mesmo número que eu contasse das estrelas do céu.
Sentei-me onde não há luz, na terra de ninguém (um pouco difícil de achar, mas consegui), olhei para o alto e comecei:
1, 2, 3...
E fui contando, sem perder nenhum pontinho luminoso que olhava pra mim.
Afinal, cada pontinho daquele é como se sorrisse para mim.
E, de repente, quando estava em 612 estrelas, uma se caiu, e eu perdi as contas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Quem pode dizer?

Ouça enquanto lê.

Eu só queria dizer que amei.
Mas que amor foi esse que se começou e se acabou em meio as palavras?
Como aconteceu  de a preocupação se tornar um desejo incessante, uma carência tamanha que necessite dessa atenção toda que só você acredita?
Queria mesmo a sua atenção, de forma mais especial, mais espontânea. Da forma como costumava ser. Não pedi nada além do que já existia em você, em nós.
Mas quando o amor vira monólogo, de uma via só, em sentido único e passa por um mar de ilusões que o deturpam e chega ao fim da ponte como cão sem dono morto de fome, ele deixa de ser amor e vira Roma.
E na praça do centro dessa cidade vou, bêbado, tentar entender a lógica dessa história que começou com gosto de canela se preparou pra ser melancia e no fim amargou "qui nem jiló" (uma saudade que quase dói).
Mas se da primeira vez era canela, fico em Roma até que a torne em amor de novo ou até que o amor mude seu significado e eu, enfim, ache um amor com gosto de melancia perdido em meio as palavras e possa finalmente dizer que amei.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Fim de passeio

Ouça enquanto lê

Era como se subíssimos as árvores folhosas, só pra descer em suas folhas verdes.
Subindo pelo seu tronco, desde a raiz, escolhendo as melhores ranhuras, até encontrar o galho mais alto, do qual teríamos coragem de nos jogarmos.
Lá, bastava escolher a folha. Era só subir em cima e dar uma chacoalhada.
A folha se desprenderia...

E viria planando, pegando aquela corrente de ar, aquela brisa.
Os nossos rostos, ora iluminado pelos raios de sol de  um dia lindo, ora escuros pelas sombras das outras folhas, se encheriam de felicidade.
E, segurando na folha, vamos até o chão... Fim de passeio.
Sem problemas, afinal, é uma árvore folhosa.
Basta voltarmos à raiz e subir de novo.

Mas o outono chegou.
Todas as folhas já estão amarelas,
ou vermelhas,
mas no chão.
E se subirmos, não temos como descer.

Te chamei. Você não veio.
Eu subi sozinho e só tem um jeito de descer:
Sozinho.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Presidiário, cumprindo sentença.

Ouça enquanto lê

A noite já vinha escura.
O frio começava a consumir.
Tinha acabado de chover,
e o chão estava molhado.

Você me calçou seu par de asas e me levou.
Me levou além do que eu acreditava ser bom,
além do que eu acreditava ser certo.
Além do meu próprio medo.

Você me deixou seguro,
voando alto.
Voamos tão alto,
fomos tão rápido.

As luzes da cidade passavam e eu nem via.
Mesmo porque minha cabeça estava em outra dimensão.
As estrelas todas se fizeram riscos
e caíram do céu desabotoado.

E quanto mais suas asas batiam,
à medida que íamos cada vez mais alto,
a brisa vinha de encontro aos nossos corpos e o frio era bom.
Não é que faz frio mesmo?

E nós voamos tão alto,
e fomos tão rápido.
Não sei se só eu que senti,
mas a adrenalina pulsava tão forte.

Conseguia sentir o coração,
batucando aquele samba que fizeram pra gente.
E a esse batuque me entreguei
e voei.

Voei na escuridão da noite,
iluminada pelos teus olhos,
pelo teu sorriso.
Desbravei meu "eu" e fui.

Obrigado por me mostrar o que há por trás da escuridão,
por me apresentar as estrelas cadentes.
Por me entregar à noite
e ao frio dela.

Obrigado por emprestar suas asas.
E por sussurrar ao meu ouvido:
"Não tenha medo,
eu te levo".

domingo, 30 de novembro de 2014

Nós dois

Ouça enquanto lê

Eu nunca acreditei nessa coisa de super heroi,
nunca tive essa ilusão.
Sempre me foi ensinado a encontrar herois de verdade, no meio da sociedade.

Herois que lutam por suas famílias,
que suam o pão de cada dia,
que dão a César o que é de César.

E encontrei, como me ensinaram,
vários herois.
Mas o grande mágico de tudo é que, muito criança que sou, encontrei o meu heroi.

Demorou um pouco pra reconhecê-lo,
demorei até perceber quão poderoso era meu heroi.
E eu descobri que era mais que isso.
Ele era um super heroi.

Super sim,
com o poder do amor,
da sabedoria,
do ensinamento...

Super em todos os sentidos da palavra.

E eu não sei o que acontece,
não sei bem dizer por que.
Mas cortaram a capa do meu super heroi.

Hoje ele tem medo.
De amar, tem medo.
A verdade é que meu heroi tem medo.

Eu não sei vestir um escudo e enfrentar essa escuridão.
Eu não sei lutar por mim, quanto menos por nós.

Posso te custurar outra capa?
Te fazer asas?

E se eu te disser que eu também tenho medo?
Que eu morro de medo de pensar em não ter meu heroi?
Que eu morro de medo que alguém me veja chorando porque meu heroi não voa?
Que eu me desfaleço de saudade?

Eu me meleco de medo do que pode acontecer no ano que vem...
Me tremo todo, da cabeça aos pés, em pensar se eu estou no lugar certo.
Porque sempre andou por nós dois...
Eu não sei andar sozinho, nem sei te carregar.

Eu não sei nem mais o que dizer.
Eu não sei pra quem gritar.
Eu não sei em qual ombro chorar.
Eu só sei ter medo junto.

Porque se meu heroi tem medo,
eu também tenho.