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terça-feira, 26 de abril de 2022

Feito de mim

E eu me perdi. 
Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, eu me perdi. 
Fui deixado, menino, às margens de mim mesmo. Sem saber se podia me adentrar, aprofundar-me em mim.
Molhei meus pés sem saber se lavava as mãos. Molhei as mãos sem poder lavar o rosto. 
O rosto sujo, cujo reflexo busquei na superfície desse rio que sou. E não encontrei.

Pronto para desaguar-me ao mar. Mas não fui. Não me deixei ir. Não me deixei ser.
Parado ali, na desculpa estapafúrdia do "nada", me torturei. Nada sei, nada sinto. Tenho nada. Sou nada.

Encontrei-me refletido e eu tinha a cara limpa. Pudemos conversar.
E ensinei-me. Na dor, mas ensinei-me. Vivi minha ditadura, camuflada em felicidade constante. Turbilhonando-me sentimentos, vozes, pensamentos, ensinamentos, vaos e inválidos. Invalidados.
O nada.
E na dor de ensinar-me e de aprender-me, fui. Quando todos já eram.
Pude ser. Quando deixei-me ser.

E hoje, sendo, sento à margem de mim, e vejo meu rio cursar, curveando por onde quer ir. Molho meus pés, nas minhas águas. E os tornozelos. As pernas. Mergulho-me. Afundo-me. Adentro-me e aprofundo-me. 
Que delícia ser. Enquanto percebo que os outros ainda nem são. Ainda buscam ser.
Que delícia já não camuflar-me mais em felicidade constante, mas preencher meus nadas com ela.
Ocupar-me comigo mesmo. Em observar-me, em ensinar-me com amor, em cursar meu rio e deixar-me desaguar no mar que também sou eu. Porque e feito de mim. Águas novas e águas passadas. Eu.

E agora, posso sentar-me à minha baía e observar o sol a nascer, as nuvens a passar, os pássaros a cantar. Posso chorar ou sorrir, cantar ou dançar, observando que o amanhã sempre vem. E há sempre uma nova oportunidade de encontrar-me. Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, encontrar-me. Sentado, menino, às margens de mim. Apenas sendo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Not dismissed at all

Ouça enquanto lê...

E me basta fechar os olhos, para que nossa noite venha à minha cabeça:

Sentados na mais macia das camas, consegui seu carinho, senti sua pele macia e ganhei um beijo seu.
Nas carícias mais delicadas, nos beijos mansos, no afago e no respeito, rolamos um por cima do outro como se cair fosse impossível. E talvez fosse mesmo impossível cair ali, pois estávamos seguros um nos braços do outro. Aventureiros, desbravadores, prontos a explorar cada pedaço daquela cama, onde nos deitamos, rolamos e trocamos nossa carícias mais delicadas e os beijos mansos. 

"Espere, tenho algo a dizer!"
"O quê?"

E fui rei, fui príncipe, bem cuidado. Majestosos, reinamos sobre o nosso próprio mundo. Aquele iluminado com luz baixa, regado com suor, perturbado por gemidos e que balança no balanço do amor. E de tanto balançar e trocar carícias, esgotamo-nos na Cama Real de nosso próprio mundo.

Nus. Assim nos encontraram ao nascermos e assim nos encontrariam agora, se rompessem a porta. Assim estávamos após o gozo. E agora, a lei do nosso mundo é ter só "o teu corpo nu, junto ao meu corpo nu". E deitadinhos ali, começam os devaneios, os delírios, talvez a desacreditação de que tudo realmente tivesse acontecido.
E confesso: pra mim é a melhor parte. Delirar e devanear nu, agarrado e feliz!

"Boa noite"
"Bom dia. Me deixa te fazer feliz?"

Por que não aproveitar os últimos momentos ao seu lado, nesse dia que acorda tão feliz, com os passarinhos cantando? Or should I say, "happily"? 
Então aproveitamos e voltamos ao mundo verdadeiro. Sem mais suor ou gemidos.
Apenas a frase de uma antiga história que ecoa na cabeça:

"O dia amanheceu tão lindo. Eu 'dormi' e 'acordei' sorrindo."

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A história da pobre velha


Como a rosa que brota da terra e se abre ao sol, à chuva.
Brota do ventre, a pianista e encanta os pássaros e os grilos.
Usando suas mãos de uma maneira que ninguém precisou ensinar.
E foi conquistando seu espaço e mostrando seu amor.

O amor que vem de dentro, passa pelos braços, e se reflete a cada vez que seu dedo bate a tecla do piano, seu grande amor.
Sempre o acompanhando, desde o dia que se encontraram.
Nos momentos mais difíceis, nos mais tristes, nos mais felizes.
Nos momentos que não eram momentos, que eram ordinários.

Quando as lágrimas rolavam, por paixões sofridas,
por sorrisos falsos de malfeitores,
por conquistas limpas. 
Sempre juntos.

Decidida, declarou seu amor, a pianista, ao seu companheiro, o piano.
E dele, pra sempre foi, como pra sempre fora. 
Era ele que ouvia sobre seu dia, mesmo.
Era ele que conhecia o que havia dentro dela, de qualquer forma.

Por que não?

Por vários anos, a pianista se escondeu atrás de seu amante.
Uma vez que a liberdade lhe havia sido tirada, 
por aqueles que se julgam melhores e governam o país,
e querem governar o mundo.

Após a guerra, 
estavam juntos de novo, 
e se amavam, como nunca antes.
Venceram essa batalha.

Mais tarde, alguns anos depois,
enfrentou um tumor cerebral.
E durante todo seu tratamento, 
internada num hospital anti-musical.

Dizia todos os dias pra si,
"estou indo, meu amor".
E de lá saiu, ao encontro daquele que sempre a preencheu.
E foi ele, quem ela viu primeiro, depois de tanto tempo.

E viu por algum tempo,
até que sua visão ficasse comprometida.
A pianista não podia desistir agora.
E pensou:

"Eu preciso, apenas das mãos
e do coração.
Enquanto eu tiver, mãos e coração,
o meu amor, eu não deixo."

E aprendeu a não precisar ver seu amor pra saber onde eles estava.
E ela descobriu que ele ainda era capaz de entendê-la
e percebê-la
e decifrá-la.

E prometeu a seu marido,
"mesmo na escuridão,
eu te encontrarei."
Bom, não foi permanente, e eles se viram novamente.

Vencedora de uma guerra, 
vencedora de uma doença,
lanterna na escuridão,
vendedora de sonhos.

Fez de tudo pra estar sempre com seu amor.
Até que...
... coitada, idosa.
Há quantos anos vive mesmo?

Acredito que nem ela saiba...
porque a cabeça já não funciona.
Já não sabe muitas coisas mais,
mas conhece, ainda seu amor.

Infelizmente, as mãos começaram a não obedecer,
doíam quando paradas,
doíam quando mexiam.
"Reumatismo", disse o doutor.

Insistiu a pobre velha.
Mas não dava mais.

Deixou uma rosa vermelha 
sobre o cadáver quente de seu amor.
Alisou-o,
chorando as patacovas que já não tinha mais.

Entendeu que era seu fim,
e que nada mais podia fazer pra tê-lo de volta.
Era sua hora.
Assim...

Naquele dia, choveu.
Se vestiu de preto.
Tocou sua última canção,
e se despediu.

E junto à rosa vermelha,
deixou a carta que alguém datilografara.
Dizia:
"Muito obrigada, meu grande, primeiro e verdadeiro amor."

Fechou o caixão
e o enterrou.
O piano, nunca mais tocou.
Ficou só, a pianista.

E no seu epitáfio, escrito:
"Se partires amanhã, me ama hoje.
Se partes hoje, obrigada pelo ontem.
Se partiste..."

E ficou só, a pianista.
E o piano... nunca mais tocou.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pelas árvores

Ouça enquanto lê

É que tocava uma valsa ao fundo.
De repente olhou pro céu e viu todas as estrelas dançando. E resolveu dançar junto com elas.
Sorria como se fosse o ápice de sua vida.
As estrelas passando lentamente de um lado para o outro, como se sorrissem de volta, enquanto ele cantava a canção que ouvia.
Daí então, o chão resolveu ajudar e se tornou escorregadio.
Era liso, feito gelo.
E, sem patins, patinava a valsa interminável.
Ela chegou, como se viesse do além.
Os dois deram as mãos e foram se balançando de um lado para o outro, repetindo a canção que dizia:
"And the lights are low."
Quando a letra se findava, se jogaram ao chão de neve.
Fizeram daqueles anjos.
Deitados, ainda, ela pegou um pouquinho de neve e jogou na cara dele.
Os dois riram muito.
E, como se possível, olharam os flocos de neve caindo, enquanto viam as estrelas tomarem suas posições de origem, ainda sorrindo.
Ele olhou pro lado e só pode ver a sombra dela passando pelas árvores.
Ela já havia voltado sabe-se lá pra onde.

Quando percebeu, havia chegado em casa. Abriu o portão. Tirou seus fones. E entrou.
Sabia que nada era real. Mas a imaginação bastava. A sensação de valsar junto com as estrelas bastava.

A neve que encontrou em seus sapatos quando entrou bastava.

sábado, 25 de agosto de 2012

Denotando.

O gato subiu no telhado.
Não conseguia mais descer.
O homem que estava em trajes de gala, por estar chegando de uma festa,
abotoou seu paletó, calçou suas botas pra pisar a lama,
e foi atrás do gato.
Bateu as botas, pra limpá-las.
Subiu no telhado também.
O gato se enfureceu, o arranhou e pulou.
No susto ele caiu do telhado.
Mas não se assuste.

O homem está vivo. Se trocou e foi dormir!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Rose Dawson

Quando é pra acontecer, acontece.
E foi assim que se conheceram.
Ao embarcar em algo tão indestrutível.
Salvou sua vida, uma vez.
Afinal, estava cansada de tanta baboseira,
futilidade, submissão.

Mostrou-lhe a vida.
Mostrou-lhe o que é viver.
E, assim, salvou sua vida muitas outras vezes.

Fatalidades...
Acontecem.
Se salvaria,
mas foi em busca daquele que havia salvado sua vida.

Ora, pois o quê lhe custaria retribuir tal favor?
O quê lhe custaria salvar a vida do seu amor?

Pobre mulher,
eles conseguiram. Estavam vivos.
Mas e o resgate? Onde estava?

Havia mil e quinhentas pessoas,
no momento em que acontecera tal tragédia sob seus pés.
Havia vinte barcos ao redor.
Apenas um voltou.

Voltou por seis pessoas.
Dentre elas, apenas uma integrante do casal.

Sua promessa deveria ser cumprida.
Deveria se salvar.
Abandonou o corpo vazio que lhe fizera companhia,
que lhe tinha salvado de si mesma.
Agora, ele só existe em sua memória.
Agora, jazia no Atlântico.

Dê ao mar seu diamante,
pois não há ninguém melhor para recebê-lo.
Pois, se no mar o abandonou, Rose,
agora, o mar inteiro tornou-se o seu amado.

domingo, 27 de novembro de 2011

Sala de estar

Ouça enquanto lê!

Chegou em casa.
Viu tal cena.
Deveria ser entristecido.
Mas como se entristecer, vendo que partira em paz.

Sentado em sua poltrona,
de frente para o som.
Com seus pés inteiros no chão.
Seus braços sobre os braços da poltrona.
As mãos fechando, como se segurassem-na.
O som, ligado... tocando a mesma música.
Com o botão de repetir acionado.

A mesma música.
Partira em oração.
Em silêncio, calma... paz.

Apreciara o que quisera,
sabia que sua hora havia chegado.
E se foi.
Sem despedir.
Sem dizer tchau.

A luz que vinha de fora, mal batia na janela.
Não estava escuro, mas não estava claro.
Estava gostoso. Um clima de quem se prepara pra dormir.

Chamara-o, não atendeu.
Seu peito não subia, não descia.
Sua cabeça não se mexia.
Os olhos não abriram.

A cabeça está voltada pra cima, como quem apenas aprecia o som.
Os olhos estão fechados.
E o vivo acaba de achar, em cima da mesa,
um pedaço de papel.
Grafado recentemente, com uma letra antiga.

"Não tenho mais tempo. Chegou minha hora.
Adeus. Amo a todos!"

Ele, finalmente, deixa cair uma lágrima!
Vai ao banho.

E quando sair, vai se vestir de preto
porque hoje é dia de luto!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quando lá fora chove...

Estávamos deitados.
Uma galera...
imensa...
Todos esticados em seus colchões, um do lado do outro.
Naquela sala...
imensa...
Amigos, namorados... todos lá.
Até os apaixonados que ainda não tinham firmado relacionamento.

Deitei-me de lado e ela de costas pra mim.
Seu colchão estava do lado do meu.
Ficava pensando em seu rosto, em chegar mais perto.
Perto suficiente para cheirar seu cabelo e sentir aquele cheiro delicioso de todas as manhãs.
E quando ela se virou, fui obrigado a fechar meus olhos e fingir que dormia.
Tal era minha insegurança...
imensa...
Passei um tempo de olhos fechados.
Até que resolvi abrir. Ela dormia.
Linda, bela, cheirosa.

Passava pela minha cabeça, esticar o meu braço,
e acariciá-la, o rosto. Ajeitar-lhe, o cabelo.
Beijar-lhe, a boca.
Mas a tensão era grande...
imensa...
E ela tossiu, disfarcei, "dormi".
E esperei mais um tempo de olhos fechados.
Abri um olho só.
Ela me olhava.
Abri o outro.
Meu coração ganhou nova frequência...
imensa...
Ela também esteve me vigiando.

Paro por aqui, imagine por ai.
Deixe-me lembrando da cena, pois pra mim é melhor que descrevê-la.
Deixe-me com minha lembrança...
imensa...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Permita-se!

E chegou o dia tão esperado. Fui visitá-lo em sua cidade.
A desculpa que dei aos meus pais é que estava a ponto de surtar. Precisava sair, conhecer um lugar novo. Que éramos só amigos.
Ele havia feito o convite, para eu visitá-lo. E, por ventura, seus pais haviam viajado!

O dia chegou. Eu estava lá. Nos divertimos durante o dia. Eu o olhava de uma forma diferente daquela que costumava olhar... E tinha quase certeza, que seu olhar era recíproco.

Passamos o dia inteiro com os amigos dele, nos divertindo, brincando, sendo felizes. E, ao fim do dia, fomos para sua casa para podermos continuar a felicidade que fora o dia. Fizemos aquele jantar especial, bebemos aquelas bebidas especias e trocamos as famosas indiretas especiais.

Até que todo mundo foi embora. E ficamos só eu e ele.
Fiquei sentado no sofá, enquanto ele despedia do povo que estava à porta. Após ter terminado de se despedir, sentou-se ao meu lado. Meu coração pulava e eu quase conseguia ouvir o seu também. Se eu poderia ouvi-lo, poderia, ele, ouvir o meu?
Então ele se aproximou. Beijou a trave. Fechei os olhos. "Por favor, um pico de sensatez. Por favor, um pico de sensatez." Não sei ao certo quanto tempo durou, mas foi longo, muito longo. Tão longo quanto o último minuto de uma aula.
Coloquei minha mão em sua face, como quando se segura o rosto de alguém para acertar-lhe um beijo. Olhei em seus olhos. Torci minha boca em tristeza. Fechei meus dedos em sua barba e afastei seu rosto do meu. Não consegui dizer uma palavra. Apenas olhava e reprovava. E ele tentava entender.

Saí do sofá, nos arrumamos para dormir. Muito gentil que era, preparou pra mim sua cama e deitou-se em um colchão no mesmo quarto. Terminei de me arrumar e entrei no quarto. E lá estava ele, deitado de barriga pra cima, um pouco inclinado, olhos semi-cerrados e seu braço direito por trás da cabeça. Ali deitei. Em seu peito descoberto. Afinal, só seus pedaços mais íntimos não estavam descobertos.

Se antes eu ouvia seu coração, agora podia senti-lo. "Ai, meu Deus. O que estou fazendo aqui?", pensava.
Até que o silêncio foi quebrado, por uma voz que não queria sair e que não era a minha.

"Eu pensei que você quisesse. Que estivesse afim."
"Um dia eu estive, e tive que confirmar que eu seria mais forte!"

Seu peito estava molhado. Mas ele não suava.

"Você não tá querendo ser mais forte. Você está sendo covarde! Vai conseguir passar os dias pensando no gosto do meu beijo?"

Fui obrigado a levantar. Já senti tudo que queria ali. Era hora de dormir.

"Aposto que tem gosto de baba. Eu arranjo outros. Alias, prefiro a dor da saudade do que a da desilusão."
"Permita-se!"
"Eu jamais me permitirei sofrer!"

Levantei e fui pra cama! Afinal, já passava da hora de dormir.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O menino esquisito

Existia um menino. Ele até que era esquisito, por isso apenas exisitia. Um dia cansou de apenas existir, mas era assim que sabia viver. Ninguém na escola lhe dava bola. Ninguém o escolhia para os times. Ninguém vinha lhe dizer bom dia. Quando muito o retribuíam tal dizeres. Ele via aquelas garotas, todas populares, com milhões de pessoas ao seu redor, fazendo convites e mais convites para festas, para saídas. E aqueles meninos, que todas as garotas comentavam, que todas queriam. E ele, não tinha ninguém. Ninguém o queria. Ninguém o chamava pra sair, ninguém aceitava seu convite. Os comentários das garotas eram: "Olha, amiga, aquele menino esquisito." E foi isso que eu disse a vocês no começo. Era isso o que ele era. Esquisito.

Pois bem, esse menino deixou de ser um menino. Passou a ser um moço. Virou um homem, um homem jovem. Mas não adiantava, continuava sendo o menino esquisito. Tentava se enturmar. Usava as gírias normais, sabia falar sobre tudo. Até que ele não era feio. Mas alguém, em sua infância, determinou que ele era esquisito. E não havia meios de fazê-lo normal!

Um dia, tal menino, que morava com seus avós, se trancou em seu quarto. Mas não havia reza que o fizesse sair. Ele nunca, nem tinha fechado a porta. E decidiu, nesse dia, trancá-la. Sem entender, sua pequena vózinha batia a porta e o chamava. E o menino ouvia: "Esquisito, você está bem?"; "Você não está com fome, quisitim? Há tanto tempo que não come..."

E assim, passaram algumas horas. A mãe do menino ficou sabendo do ocorrido. E ele nem quis sair pra atendê-la ao telefone. Até que seus pais saíram de sua casa, para ir até o menino. Para tentar fazê-lo sair.

Mas que menino esquisito, quem entra num quarto e se tranca e não sai por nada? E, sabem o que era pior? O menino nem respondia.

Sua mãe o implorou e ele ouviu: "Filho esquisito, sai daí! Vem comer alguma coisa, ver o sol.", "O que está acontecendo? Hm? Conta pra mamãe"! Mas nada, o menino invocou em não falar. O pai desse infeliz dizia a sua mulher: "Vamos arrombar a porta. Esse menino não pode ficar aí dentro pra sempre!" Mas a mãe disse: "Sinto muito, amor. Ele já é menino-homem. Sabe o que faz. E se assim decidiu, assim está decidido."

Enfim, passaram alguns dias. O óbito era certo. Não havia meios dele estar vivo. A não ser que fosse tão esquisito ao ponto de suportar dias e noites sem comida, bebida e sol. Finalmente arrombaram a porta. Tiraram o menino esquisito, desidratado e morto de dentro do quarto. E foram enterrá-lo.

Em seu velório e em seu enterro havia muita gente. Todos que estudaram com ele em todas as escolas que ele passou. Toda sua família e até o motorista do ônibus que ele pegava todos os dias, religiosamente. Talvez, o menino esquisito não fosse esquisito, mas assim se sentia. Afinal, todos lhe davam bom dia, todos lhe sorriam, todos lhe convidavam pra sair, menos uma pessoa. Aquela pessoa importante. Aquela especial. E por isso, nada mais pra ele tinha valor. Ninguém mais tinha valor. Apenas uma. A única que o achava realmente esquisito.

E sem mais, pra terminar, o final do fim. O fim de tudo. Em sua sepultura havia os dizeres feitos por sua mãe. Havia a seguinte escrição:
"Não o queria morto.

Mas ele quis assim.

E ele só quis tal morte, para acompanhar tal vida.
Viveu sempre num mundo... sozinho,

afogado em seus pensamentos e embrulhado por suas lágrimas.

Se assim foi a sua vida, assim queria que fosse a sua morte!"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Por você, até o Japão em cima de um papagaio real

Quando o sol bater, te acordando no meio da madrugada, lembre-se que eu o pedi que assim procedesse.
Fui até o céu da mesma noite, porque cansei de gritar pra lua me ouvir. Fui com minhas asas de ouro dourado e contei tudo ao seu ouvido. Ela me deu a ideia mais fantástica. Ela me disse que se eu te desse uma estrela, você seria minha. Pulei de nuvem em nuvem, perguntei a cada estrela, procurando aquela que concordaria com a ideia de sua mãe, qual delas iria pra casa, pra que eu entregasse ao meu amor. Isso significaria que, aquela que aceitasse, deveria descer do céu e ficar na terra. E depois de rodar a metade do mundo, sem encontrar uma estrela sequer, achei a maior e mais brilhante estrela. O sol. Era da cor de minhas asas. Como com a lua fiz, contei ao sol sobre meu amor.
Aquela estrela entendeu minha história e quis descer aqui para que eu pudesse te dá-lo. Mas, com seu tamanho, acabaria com as nossas vidas, antes que eu te ganhasse. A minha ideia (a que eu contei ao sol) não era minha. E isso o sol percebeu. Ele me disse que era de sua amada lua, e que eles foram designados a viverem um em cada canto da Terra.
Ora pois, não poderia ajudá-lo? já que ele queria me ajudar.
Convenci que devia lutar por sua amada, assim como eu estava fazendo. Como se o amor tivess me ajudado, tive a fascinante ideia, te daria o sol sem entregar-te. Mas entregaria-o a lua.
E o mesmo tempo que demorei pra chegar ao sol (cerca de um tic e um tac do ponteiro dos segundos do meu relógio de chocolate), demoramos pra chegar à lua. E às 03h00m, chegamos. O sol e eu, nele montado.
Mostraria a todas as estrelas como nosso amor valeu à pena. É, eu teria mostrado se os dragões não tivessem comido todas elas. Mas isso já é outra história.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Satélite terrestre

Hoje eu vi a lua sair tímida por detrás dos prédios.
Tão tímida que chegava a corar sob os olhares de todos que a viam subir.
E subindo devagar, ela ia perdendo o tom tímido e ganhando uma força interior, já não corava mais com aqueles que a viam, mas iluminava-os.
Iluminava-os de tal maneira que o mais rude se apaixonou, o mais agitado se acalmou e o esquecido se lembrou.
Se lembrou que uma noite estava a olhar a mesma lua, mas tanto ele quanto a lua estavam acompanhados e agora os dois estavam sozinhos.
Se lembrou que já se esquecia de alguém que o deixou ferido.
Por conta disso, seu coração se parecia com a superfície de sua companheira, como se tivesse sido travada uma batalha entre um dragão e um guerreiro.
A lua, distante e, agora, até mesmo fria, o curar não podia.
Não podia nem mesmo se curar, quanto menos ao seu pobre amigo, um dos muitos feridos que lá estavam.
Ah, se a lua fosse enfermeira! Os partidos corações apaixonados não derramariam mais as suas lágrimas.
Ah, se a lua parasse o tempo! Todos ali ficariam e esqueceriam suas mágoas.
Ah, se a lua fosse donzela! Até mesmo os boêmios desolados se casavam.
Ou quem sabe ela poderia ser apenas um sapo.
Já que todos apostam nela suas últimas esperanças, também as princesas de moribundo coração fariam os seus futuros.
Mas a lua, pobre lua, é apenas mais uma na imensidão de apaixonados, girando em torno de alguém com quem nunca vai se encontrar, sendo iluminada por quem nunca vai aquecê-la, e fazendo outros bobos apaixonados sonharem.
Sonharem com seus amores ou com a luz de seus amores que, na noite seguinte, retornará.
Talvez, esse seja seu segredo: nada ela pode fazer.
Apenas nos olhar.
O resto a gente decide!

Por: Gabriela Lessa
e Otávio Miziara

segunda-feira, 21 de junho de 2010

From my deep heart

Sometimes, I think about my life. Am I happy? Is everything making me happy? Am I making myself happy? I could leave and get away from it. I could back to who I do know. I could look for something that wouldn't make me so tired, but happy.
Maybe, I'm losing what I was supposed to win. In my present I guess how the future will look like. If, in the future, everything was perfect. That's (what is happenning) is everything that I looked for. I knew that would be easy. But it's not, I was wrong. But it's not a mistake.
I know God loves me. And if it was worse to me, God wouldn't let me come. So, I'm here. That's the best way. That's what my God says to me. I gotta believe. I have to. I know I'll cry at night, but no one will see me but God. I know my tears will be dryed by my laughs, when my turn to forget arrives.
I believe that there is only one who I can trust. But there are a lot of people that live in my heart and all of these people will wait me a half, one, two, five years. I just can't be late, maybe late brings death. If it happens, I will look back and say "I can't believe that I didn't enjoy them". I'm so young. I'm so old. I'm young and old enough to decide.
Now, I can't stand. I wish I could get away with it, but I can't. I don't want to give up. I wouldn't be shame if I did, but I don't. I'm just trying to say that is difficult to say goodbye, even on telephone. But worse is not say hello, even in dreams.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um conto anatômico

Era uma vez um osso sesamóide.
Ele estava em perigo. Um tendão horrível o prendia em suas fibras enormes e não deixava o pobre sesamoidezinho sair. Só havia um jeito de fugir daquela terrível prisão: pedindo ajuda!
- Socorro, socorro. Quem poderá me salvar?
Até que, finalmente, alguém gritou:
-Eu, o Tubérculo 'super'-glenoidal!!!
Ahá, nem tudo estava perdido para o pequeno osso curto. Ou será que estava?
Aquela projeção fez de tudo para salvar o osso que dá eficácia aos movimentos, mas não deu conta de livrá-lo das fibras terríveis de um simples tendão.
E com aquele fusuê todo, o resto do corpo já não aguentava mais.
Foi então que uma pequena parte de um osso do apêndice superior entendeu tudo o que estava acontecendo. E explicou:
-Deixem-me falar! Eu tenho a solução. Sesa, será que esse não é o seu lugar? Como disso o nosso querido e ilustríssimo narrador, você é um osso que auxilia na função motora. O tendão também age na mesma função. Portanto, esse é o seu lugar. Você deve permanecer aí para sempre, assim como eu fico aqui e o Supra-'super' fica lá.
-Você só diz isso porque é amigo do tendão.
-Imagina, graças ao tendão eu não pude crescer como o resto do osso ao qual eu pertenço.
Isso fez com que o osso curto entendesse que ali era o seu lugar.
Com a fabulosa e magnífica explicação daquele afundado, todos compreenderam o que realmente se passava.
Já que todos tinham entendido tudo, já que tudo estava resolvido, o fusuê corporal acabou. E todos agradeciam gritando:
-E viva o Sulco do Tendão do Músculo Extensor Ulnar do Carpo!!!

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Diálogo de fim de ano

- Ainda me lembro da Vó Dilza, no ano novo me dizendo que na virada do ano passava um velhinho na rua e logo atrás vinha uma bebezinha, simbolizando o nascimento de um novo ano. E me lembro de esperar a noite inteira lá na rua e não ver ninguém. Foi muito decepcionante.
- É, mas hoje a gente entende o que é o velhinho e a bebezinha.
E não nos decepcionamos porque conseguimos ver, de alguma forma ou de outra, o velhinho e a bebezinha passando.

FELIZ NATAL.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

João Neiva

João Neiva era um cara bacana, vivia feliz por fora. Por dentro, doía tudo. Seu coração, sua cabeça, cada vez mais num eterno paradoxo.
Gostava de uma menina que não lhe dava bola. Tentou outra menina, por sua insegurança de se prender à primeira. Tentativa frustrada. Sua auto-estima cada vez mais baixa.
Queria saber da vida de seu irmão, sua resposta alcançada era sempre a mesma. O puro silêncio da suja dor.
Se achava o tal, mas isso não era.
Não sabia mais o que fazer da vida. Em relação a nada.
Se ele não sabia, quem iria?
Mas todos acreditavam fielmente que João Neiva era a pessoa mais feliz do mundo. Já que essa era a impressão que ele gostava de passar.
João Neiva não desistia, sentia, sabia, queria que tudo passasse.
Sua vida escolhida, seu melhor amigo na mão.
Sua dor embora, sua paz no coração.
Quanto a garota, que todos já haviam esquecido, João Neiva continua lembrando dela.
Cada vez mais pessoas sabem o nome da dona, Dona da Mão. Duquesa do coração de João. Donzela da vida. Metade do coração de João.
Ah, o João. João tentou, não podemos dizer que não. Ele já disse à ela as palavras mais lindas. Já criou e perdeu coragem. Já sorriu e chorou por ela. Já sentiu um quê de reciprocidade. Mas, infelizmente, sua incerteza e medo de tudo quanto há o fizeram desistir de tentar.
Aquela música o lembra ela.
Aquela dança o lembra ela.
Aquela piada, aquela fala o lembram ela.
João Neiva lembra dela o tempo todo que o tempo não tem.
E por falar em tempo. O tempo passa e tudo na vida de João Neiva parece estar mudando. Menos sua garota que nunca foi sua.
Ela continua linda, doce, graciosa e bela.
Ah, o João Neiva é um trouxa.
Ah, o João Neiva é foda!
Ah, o João Neiva...
Pode existir gente melhor, pode existir gente pior. Mas igual ao João Neiva???
Ah, nunca.

domingo, 24 de maio de 2009

Tempo "livre" na sala de aula

-Aaaaah.
-Medo de você.
-Não tenha.
-Vou pensar no seu caso!
-Ok. Qualquer dúvida chama o Zorro. Chapolin?
-Pode deixar. Obg pela dica! Acho + bonito o Zorro mesmo :)
-Disponha.
-Só p/ isso? /TAPAREI ;x
-Ah, pode dispor p/ outras coisas também!
-Aiaiaiuiui. Vc tá ai ainda?
-Sim. E você?
-Não, eu morri faz 3 anos ;-;
-Ah, por isso que eu fiquei 4 anos te esperando =D.
-MIJOS. Relaxa que eu sou da Paz.
-Esse é o nome da sua funerária?
-Não... Sou da Paz Eterna.
-Paz Eterna, da onde?
-Do Parque da Paz. Conhece?
-Já visitei. Numa noite que não tinha nada pra fazer!
-Ah tá. Entendo. Fico vagando lá de vez em quando, vc sabe como é, sofro de insônia. D:
-É, talvez pq morto não dorme. Oo'
-Claro que sim. Um sono profundo. O.O
-Ah.Eu não durmo há 7 anos.
-Ah, você morreu tbm? Onde tá enterrado?
-Ah, não acharam meu corpo.
-Poxa, que triste. Morreu de quê?
-Não sei, foi rápido demais. Eu só vi qnd subi.
-Hum. *mfmf* Foi pro céu?
-Sim. Você não?
-Sim, tbm. Não tive oportunidades de cometer muitos pecados.
-Isso é bom...ou não. Com quantos anos morreu?
-Morri com 27, ainda virgem, até da boca. /CRY, e vc?
-Com 30. Morreu de quê?
-Mesmo problema que minha mãe.
-E qual era?
-PÁNELA...
-(?)
-Um trator deu ré e pá-nela.
-Putz. Que azar. As duas morreram assim. Mas pq que vcs estavam atrás de um trator?
-Tínhamos um terreninho no alto do morro do interior da minha cidade. Ficávamos vigiando os peão que trabalhava pra gente ( aqueles primo que trabalha em troca de pão e água).
-Nossa. Mas com 27 anos já se comete muitos erros. ^o)
-Erro só se for no trabalho braçal de cada dia. Pq não tinha tempo pra minha pessoa. Sabe como?
-Não, no dia que eu morri eu ia encontrar com uma menina.
-Que menina.
-Não sei, não conhecia, meu amigo ia apresentá-la naquele dia.
-Show de bola.
-Pra você, né?!
-Ou mais :P
-Ou menos. HAHAHA =D
-Vish que corte...vc tem uma colher?
-Não uso isso aqui. Pq quer?
-Pq tô te dando sopa. /Pegaelbgs =*
-