sábado, 26 de outubro de 2024

Eu te amo-ei.

"Eu te amei" é a frase que todos os dias eu quero te dizer.
A diferença disso... dessa informação? Nula.
Mas todos os dias, na minha cabeça, eu crio coragem para te dizer "eu te amei".

Talvez a frase esteja no passado, porque acabo buscando alguma auto-preservação tosca e enganosa. Talvez porque sobre o passado eu tenha certeza. Enquanto que sobre o presente ou o futuro, eu desconheça sua completude e exatidão. 
É confuso.

"Eu te amei"... no passado da frase "eu te amo", que é o que eu gostaria de te dizer todos os dias, desde o dia que eu disse pela primeira vez. 
Porque ali, naquele momento, eu tinha certeza que eu te amava. Eu tinha a certeza que eu me perderia pra sempre no seu olhar.

"Eu te amo" é o que eu queria te dizer, também nos dias que eu "não te amasse". 
Também nos dias que a gente discutisse, que a gente se chateasse. 
Mas que mutuamente nos lembrássemos que "eu te amo" e que aquilo passaria.

Na realidade, não passou. 
E (em alguns sentidos) eu não posso mais dizer que "eu te amo".

"Eu te amo"…
também é a frase que eu gostaria de ouvir de você,
todos os dias.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

La verdad

La verdad és que me gustaria que nunca se hubiera acabado. Que estuviéramos juntos. Que pudiera verte a cualquier hora y cualquier momento.

La otra verdad és que me gustaria no haberte conocido. Así yo no iba a saber qué és el sufrimiento. Yo no tendría que agarrarme a la história que yo inventé para vivir sin ti.

La tercera y la última verdad és que ¡me gustaria muchísimo no haber conocido el amor!

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A porta que eu abri.


Ouça, enquanto lê...

Havia uma porta.
No meio do nada, uma porta.
Tudo era escuridão e vazio ao seu redor.
Apenas uma porta.

Havia uma pequena escada que dava nesta porta.
Uns três degraus, eu acho. Nunca me atentei a contá-los.
A maçaneta era redonda.
E o batente, lindamente esculpido.

Não consegui mais vê-la fechada.
Abri.
O que há tanto tempo esteve trancada.
Abri.

No dia que você bateu a porta e passou a chave, eu escorreguei por ela. Chorei sozinho e copiosamente. Solucei, sem ninguém me ver. Porque é tudo escuro.
Dias se passaram e eu me levantei. Alisei a porta, como se acariciasse seus cabelos, seu rosto, sua barba.
Contei as ranhuras, como se eu pudesse contar as pintas de suas costas ou de seus ombros.
Colocava a mão sobre a maçaneta, sem rodá-la.
Olhava pela fechadura e checava por debaixo da porta.
Passos do outro lado? Bilhetes escondidos?
Qualquer sinal de que estava, então, aberta.

Semanas incontáveis foram necessárias, até que eu saísse das escadas.
Até que eu abandonasse meu posto, na escuridão.

Sequei o rosto e saí.

Virava e mexia, passeava pela porta.
Quem sabe haveria um bilhetinho esquecido por ali?

Os cenários foram mudando. E eu já não sabia mais se você tinha a chave ou se a tinha perdido. Ou, se por acaso, eu, bêbado, havia trocado as fechaduras, sem te contar.
Como você abriria a porta?
Então fiz uma cópia da chave. E passei pela fresta embaixo dela.
A verdade é que eu mesmo a abri.
Abri só um pouquinho e a deixei encostada.

Você a escancarou e me viu ali.
Meu coração palpitou, mas eu tive controle sobre tudo.
Tudo continua uma grande escuridão e eu não consigo enxergar o que há do lado daí.
Eu poderia trazer lanternas, trocar as lâmpadas, ou simplesmente entrar.
Mas acho que eu nem quero.

Só precisava da porta aberta e meia hora de papo.
Desculpe se durante a conversa eu começar a novamente olhar pela fresta ou contar as ranhuras da porta.
São velhos hábitos, que eu não entendo muito bem.

Uma pena não ter tido nenhuma carta no chão, mesmo com tanto tempo passado.
Uma pena maior não podermos conversar de verdade por meia hora.

Só não se vá de novo.

Mesmo que nunca mais venhamos à porta, vamos combinar de deixá-la aberta.
É mais confortável aceitar que não há nada do outro lado, quando eu vejo somente a escuridão através da porta, do que me questionar se foi o vento que bateu ou se foi você que passou a chave de novo.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Só pra encerrar.

Oi. 
Eu vim te dizer adeus.
Sonhei com você, há alguns dias. 
Depois de tanto tempo, você me visitou de novo. 
Empasmado, fiquei, quando reparei que podia ver seu rosto.
Achei que já tinha me esquecido dele.
Mas eu o vi, e ele sorria. 
Já não era pra mim, e eu já nem queria que fosse.
Ao final do sonho, você se vai, ao longe, acompanhado e aparentemente feliz.
Eu fico.
Comigo mesmo e cercado de verdadeiro amor.
Te observo distante, pensando "eu fui eu mesmo".

Acordei nesse dia, entendendo que você se foi. 
Mas que dessa vez, se despediu.

Hoje, alguém que estava comigo usava o teu perfume. 
Ou talvez algum muito similar.
Passei horas sentindo o teu cheiro. 
Lembrei que era bom.
E percebi que não doeu.
Meu coração não se acelerou, meu estômago não se revirou.
Não tive nenhum momento de surdez ou visão turva.
Foi naturalmente um dia qualquer.

Percebi que já posso te dizer adeus.
Mesmo que eu permaneça sempre aqui, junto da minha família, como uma vez te prometi.

E então, é isso.
É o que me resta dizer.

Adeus!

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Sempre nua

Então folheio um livro qualquer, divagando sobre o que leio.
Essa poesia, escrevo como a última de minha vida. 
Cada letra ecoa e se torna parte de uma melodia,
compondo a música perfeita de uma trilha sonora.
E com o que leio, escrevo ou ouço, tento sempre refletir amor.
Portanto, quando - e se - declaro meu amor, é honesto. Da minha alma para as suas.

Afinal, isto é o que somos. Almas.

E quero a minha sempre nua, a banhar-se de sol. Com seus braços abertos, sentada ao parapeito. Sentindo-se. Lendo-se. Escrevendo-se. Sendo-se.

Entregue ao momento da nossa humilde existência, mesmo sem saber se o verei [ao sol] no alvorecer. Ainda que certo que ali, ele estará.

Chiaroscuro

A renascer
Na pintura
Na arte
Na tela
Sobre óleo

De Caravaggio
As curvas
O ângulo
A inclinação
Do corpo
Da boca
Dos olhos

De escuridão
Uma vida
Aqui
Remanescente
Renascente
Renascentista.

Sobre os trilhos

Caminhando com a alma embriagada de felicidade, me tenho como par, nessa valsa incessante e findável. Piso no contratempo, respiro em suas pausas, faço minhas piruetas no clímax que recebo da melodia vital que ecoa em mim.
Vou me equilibrando nos trilhos. Pé ante pé. Sem a menor pista do meu destino, que ilusoriamente, eu mesmo traço. 
Afinal, o maquinista não sou eu. Mas eu escolho se aguardo na estação ou se sigo bailando sobre os trilhos, até chegar o próximo trem!

terça-feira, 26 de abril de 2022

Feito de mim

E eu me perdi. 
Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, eu me perdi. 
Fui deixado, menino, às margens de mim mesmo. Sem saber se podia me adentrar, aprofundar-me em mim.
Molhei meus pés sem saber se lavava as mãos. Molhei as mãos sem poder lavar o rosto. 
O rosto sujo, cujo reflexo busquei na superfície desse rio que sou. E não encontrei.

Pronto para desaguar-me ao mar. Mas não fui. Não me deixei ir. Não me deixei ser.
Parado ali, na desculpa estapafúrdia do "nada", me torturei. Nada sei, nada sinto. Tenho nada. Sou nada.

Encontrei-me refletido e eu tinha a cara limpa. Pudemos conversar.
E ensinei-me. Na dor, mas ensinei-me. Vivi minha ditadura, camuflada em felicidade constante. Turbilhonando-me sentimentos, vozes, pensamentos, ensinamentos, vaos e inválidos. Invalidados.
O nada.
E na dor de ensinar-me e de aprender-me, fui. Quando todos já eram.
Pude ser. Quando deixei-me ser.

E hoje, sendo, sento à margem de mim, e vejo meu rio cursar, curveando por onde quer ir. Molho meus pés, nas minhas águas. E os tornozelos. As pernas. Mergulho-me. Afundo-me. Adentro-me e aprofundo-me. 
Que delícia ser. Enquanto percebo que os outros ainda nem são. Ainda buscam ser.
Que delícia já não camuflar-me mais em felicidade constante, mas preencher meus nadas com ela.
Ocupar-me comigo mesmo. Em observar-me, em ensinar-me com amor, em cursar meu rio e deixar-me desaguar no mar que também sou eu. Porque e feito de mim. Águas novas e águas passadas. Eu.

E agora, posso sentar-me à minha baía e observar o sol a nascer, as nuvens a passar, os pássaros a cantar. Posso chorar ou sorrir, cantar ou dançar, observando que o amanhã sempre vem. E há sempre uma nova oportunidade de encontrar-me. Por tantas e inúmeras e incontáveis vezes, encontrar-me. Sentado, menino, às margens de mim. Apenas sendo.

Família

Onde se encontra um verdadeiro lar. É refúgio, carinho, atenção e puxão de orelha. 
É risada, é abraço, é colo, é choro.
Onde o amor brota. Onde aprendemos o que é o amor.
Onde estamos seguros, mesmo que com medo. E podemos ser exatamente quem e como somos. 
É aquilo que dói na distância. E não muda nada, não importando o tempo que passe. Família sempre será Família. 
Seu signnificado terá entradas intermináveis no dicionário. E seu sentido transcende a conexão sanguínea, mas cria pontes floridas, construídas sobre os pilares do amor.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Frenesi

Me balanço.
Não há mais nada ao meu redor. Nem dentro. Nem fora.
Existe eu. Existe o movimento do meu corpo. E o movimento que eu acredito que ele faz. E existe a liberdade. 
De ser, de estar, de balançar.
Livre.
Livrado.
Liberto.
Num transe incalculável, onde eu não sou mais eu.
Ou melhor, onde sou exatamente eu.
Transcendente.
E eu me balanço.
E eu me sou.
O ruído de fora, que me move os pés, é o ruído de dentro.
E vai caminhando por mim, até que eu interrompo esse frenesi, no medo de ser tão eu que me exploda, ou que voe e não saiba mais voltar.
Eu abro os olhos e ainda piso o chão.
Ainda estou inteiro.
Mas todos veem minhas asas abertas.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

A minha rua

Me apoiei sobre o parapeito, como aquelas namoradeiras da vila. Cruzei os braços e joguei meu peso sobre eles, sentindo a brisa que batia. Olhei para um lado e para o outro, como se aquele fosse um olhar de despedida, como se meu olhar dissesse “vou sentir falta disso” e tentei observar todos os detalhes que via. Reparei no cachorro que andava virando latas, recebendo um carinho daqui e um safanão dali. Ouvi passarinhos cantando em sinfonia com a brisa, pousados sobre os fios elétricos.

De repente, vi um menino andando, brincava com seu irmão, na inocência da infância. Eles revezavam uma bicicleta e, claro, seu irmão mais velho andava por mais tempo que ele. Ele se emburrava, mas tornava a montar e andar, respeitando seu tempo. Até que foi a hora de se irem.

Enquanto acompanhava os meninos indo para um lado, vinha de lá um adolescente. Andava meio cabisbaixo, com fones de ouvido. Estava só. Cantava o que ouvia, como se ninguém reparasse. Mas eu reparei. Foi andando até que parou no meio da via e tocou uma campainha. Atendeu-lhe, uma menina de sua idade. Andaram e passearam e dividiram seu fone. E cantaram e dançaram juntos. E riram. E já não era cabisbaixo, mas ainda adolescente. Ela precisou entrar e ele seguiu andando a rua, pisando pensativo cada paralelepípedo. Até que encontrou um monte de outros garotos. Parecia querer fazer parte, mas não ser. Esses adolescentes. Quanta informação recebem, vãs e intensas ao mesmo tempo.

Perdi o menino de vista, quando ele se esbarrou em um jovem que saltitava, com um par de rosas na mão. Parecia ter encontrado o amor da sua vida. E foi saltitando, com aquelas rosas, por toda a rua. Dançou com o poste, fez carinho no vira lata, assobiou para os passarinhos e dançou tango com uma senhora que tropeçou em sua alegria. Deu-lhe um beijo na testa, entregou uma de suas rosas e seguiu saltitando. Sempre saltitando. Só pude sorrir, ao vê-lo.

Mais uma vez, ouvi o latido do meu companheiro e percebi que quase fora atropelado por um jovem adulto que passava, de terno, andando a passos largos, como se não prestasse atenção no cenário tão rico em que estava inserido. E em menos de um minuto, cruzou a rua inteira.

Estava perplexo ainda, quando resolvi absorver mais detalhes da via. E então percebi um outro rapaz, sentado ao meio fio, bem de frente a minha janela, chorando copiosamente. Tinha uma rosa despedaçada à mão. Era ele, o bailarino de tango. Recebia agora umas lambidas de amor. Tendo visto a rosa ao chão, sem vida, amassada, pretejada, a bailarina sentou-se ao seu lado, fez-lhe um carinho e tirou-lhe para dançar um romance e tomar um café e oferecer-lhe uma rosa. E foram, os dois, de braços dados, para o café da esquina.

Ao entrar, os dois tomaram esbarrões daquele moço que anda correndo, sem pensar em nada. Não vimos de onde veio. E não conseguimos acompanhar para onde ia. Apenas passou.

Passou como o tempo. E eu aqui, na janela. Quando dei por mim, já era anoitecer e percebi que aquela bicicleta dos meninos estava jogada no chão, beirando a calçada. E as crianças, de volta à rua, brincavam com um senhor. Tinha os cabelos brancos e ria ao jogá-los para cima. Eu não podia ouvi-los muito bem, mas tinha som de amor, cor de amor, sorriso de amor, sabor de amor, cheiro de amor. Marejei meus olhos, nessa imagem sinestésica de amor.

E a rua foi se esvaziando. O café fechou e o moço já conseguia sorrir. Recebeu um telefonema e foi andando, olhando para cima, procurando algum pássaro para assobiar, enquanto andava. A bailarina, se juntou ao senhor e partiram, os quatro de mãos dadas, intercalando as idades. O grupo de adolescentes se dispersava. Cada um para sua casa. E, quando sozinhos, mudavam suas feições e o sorriso desaparecia. Esses adolescentes. Tanta mutação repentina.

Entrei para meu jantar. E percebi que meus cotovelos doíam. Antes de deitar-me, fui fechar as janelas, pois já esfriava. Dei mais uma espiadela para a rua de minha casa. Vi lá no fundo, aquele moço desatento, passeando. Vinha com seu paletó aberto, incapaz de prestar atenção em uma coisinha sequer, mas percebendo tudo que havia a seu redor. Abraçado em algum outro jovem, também bêbado. Cantavam em voz alta, faziam carinho no cachorro, dançavam um tango trôpego com a alegria, assobiavam para os pássaros que já dormiam, viravam as latas culposa e embriagadamente, abriam os braços para sentir a brisa que batia. Afinal, nunca seria tarde para curtir a minha rua.

Decidi deixar as janelas abertas. Os meus olhos passearam pela rua, uma última vez. E eu repeti para mim: “vou sentir falta disso”.

domingo, 16 de agosto de 2020

Ainda

É que você não sabe, mas a gente ainda dorme junto. A gente ainda passeia pelas ruas da cidade. Você ainda ensaboa meu corpo, enquanto eu passo xampu na sua cabeça.

Talvez você não saiba, mas eu... Eu ainda sinto a sua falta.

Talvez eu não saiba, mas talvez eu ainda te ame.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Eu não vou lembrar seu nome.

Às vezes me pego pensando se deveria ter te deixado voar. Me parece que fiz tudo o que podia. Falei todas as coisas que eu precisava. Todas as que me engasgavam. Todas que me vieram à cabeça, por tanto tempo, e que eu remoí, dentro de mim. Como um gado ruminante, a ruminar todo esse sentimento que um dia eu chamei de amor. Que talvez ainda o chame, não sei bem. 

E de todas as coisas que vivemos, cada minuto de felicidade e de tristeza e de amor e de ódio, só uma me traz paz. O dia em que despejei sobre você todas as palavras que ruminei. E por isso, eu te prometo. Por mais difícil que seja, eu te prometo: Eu não vou lembrar seu nome.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Despedida sem cor

E na fumaça do trem, escrevi o nome do meu amor.
Porque era mais fácil agarrar às letras que compõem os sons da minha saudade do que lembrar da imagem de uma despedida sem cor.
E aqui, no mesmo lugar onde você me deixou, observo a fumaça cinza se desfazendo pelo céu azul e levando seu nome para longe.
Rogo para que um dia a minha saudade cinza também se desfaça em azul.
Para que um dia consiga colorir de novo, esse céu chuvoso de tristeza em meu coração.
Para que a saudade seja somente uma palavra, que se perde no tempo, na cor, no peito e na estação. Doendo a partida, mas sem doer a dor da perda.

ps: Em parceria com Dime. Para mais, procure no Instagram @dimecitou

domingo, 22 de dezembro de 2019

Simplesmente, assim

Ouça, enquanto lê.

Querido diário,

Hoje, sonhei com ele.
Ah, como foi bom.
Eu me sentia bem inseguro ainda. Agia com dedo para não feri-lo, não machucá-lo. Não afastá-lo de mim.
Mas estava tão gostoso.
Eu não podia deixar de sorrir.
Com meus olhos, minha boca, meu corpo, eu sorria.
Sorria até com a alma.

Ele estava junto comigo.
Eu deitei sobre seu peito.
Em outro momento, deitamos de lado, abraçados.
Minha mão agarrando o peito dele.

Era tudo o que eu queria.

Mas, no fim, eu acordei.
Eu juro que rezei pra dormir de novo e voltar para o mesmo sonho.
Não deu.

De novo, eu me vejo sem ele.

E foi isso.
De maneira bem direta.
Um desabafo superficial, que carrega sentimentos bem profundos.
Sem meus devaneios, delirios.
Sem jogo de palavras.
Sem todas aquelas sentimentalidades ou ênfases poéticas que eu gosto de escrever.
Assim. Simplesmente, assim.

E é como diz a música:
"Te tenho em sonhos. E somente eu sei  o quanto eu esperei. Vem me tirar dessa prisão de somente te ter se eu sonhar outra vez."

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Léxico

Ouça, enquanto lê...

Uma vez, eu li uma frase que dizia "a língua portuguesa tem 435.000 palavras. E com nenhuma delas, eu consegui te fazer ficar". 
Me doeu, o coração, quando li. As palavras que sempre mexeram comigo e que sempre pensei serem minhas amigas, não foram suficientes pra te fazer ficar. E posso dizer que tentei até pegar algumas emprestadas de outras línguas. Apesar de estarmos falando de palavras, sei que lutei muito, sei que agi muito. Provavelmente, errei muito. 
Me peguei pensando que talvez eu devesse até ter inventado uma ou duas palavras novas e quem sabe, assim, você não iria embora. 
Mas, agora, no fim, acredito que isso não te faria ficar. Apenas serviria pra eu dizer que de 435.001 palavras, nenhuma delas te fez ficar. Ou 435.002 ou 3, ou quantas palavras mais eu tivesse inventado. 
Fica? 
Eu passo um café pra nós dois. 
Eu te faço um cafuné.
Você gostava tanto de mim. Não consigo acreditar que tudo se foi mesmo. Será que não sobrou um pouquinho de sentimento aí no seu coração? 
No meu, sobrou um buquê inteiro de sentimentos, pintados com o mesmo amarelo das rosas que te dei. 
Mas a cada dia, parece que me cai um caco novo, ao chão. 
E em quantos cacos devo partir meu coração até ter você de volta? Qual parte de mim te afastou assim? Te arremessou pra longe? Foi meu café muito doce? Ou o gosto da bala em minha boca, quando te beijei? Algum dos meus cacos te furou? 
Fica.
Volta!
Me ajuda a colar tudo. E fazer bater novamente, o coração que um dia eu te dei.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O mar e eu

Onde a calmaria se confunde com a ira
O fim com o começo
O amor com o ódio

Pra uns a chegada e pra outros a partida
Do lazer e da labuta
Da infinitude e da pequenez.

De coração geminiano,
Feito como o mar.
Pronto para amar.

terça-feira, 7 de maio de 2019

O vazio da lembrança

Ouça enquanto lê.

E meus olhos resistem. Não querem se fechar, não permitem que eu durma, enquanto não te tenho ao meu lado. Fico com meus pensamentos rondando por onde passamos e aonde chegamos. Revivendo memórias incríveis, momentos tão felizes, tão importantes, tão puros. Sinto meu corpo estremecer. Meu corpo sente a falta do seu. Meu ouvido busca a sua voz. E minha esperança te espera no portão, todos os dias. Meu sorriso se ensaia em frente ao espelho antes de sair de casa, para a hora que você chegar. Tento dizer a eles que não é hora ainda. Mas nem eu mesmo acredito nas minhas palavras. No fim, eu mesmo os encorajo a buscarem sua voz, te esperarem no portão ou se ensaiarem em frente ao espelho. Eu mesmo escolho a roupa que vestirão, os lembro de pôr um casaco e de pegar um guarda-chuva.

Mas me preparo em vão, todos os dias. E o que me agoniza e me conforta são mesmo os pensamentos e as memórias que me cercam. São eles que me fazem companhia (que meus travesseiros não me ouçam). Abraço-os – os pensamentos e os travesseiros – na esperança de te encontrar, procurando seu cheiro. Gosto de brincar que é nas suas pernas que estou dando nó. Ou que é no seu peito que estou deitando a minha cabeça. Chego até a acariciar um deles, pensando que poderia te fazer um cafuné.

Rezo todas as noites (ou a toda hora) por um momento melhor. Onde eu não seja velho, mas ainda seja jovem, com toda vontade de viver. E assim possa viver junto com você. Oro pela nossa felicidade. Que não sejamos cordeiros em época de caça. Mas que sejamos estrelas altas, lindas, brilhantes, que iluminam a escuridão. Que sejamos como as araras, a voar em pares. Que meus ouvidos encontrem a sua voz. Que seus olhos encontrem o meu sorriso. Que minha esperança te encontre no portão. E que meu corpo esbarre no seu.

Por fim, durante a minha oração, meus olhos que não aguentam mais, se desabam. Interrompem qualquer busca por você. Afastam todos os pensamentos e memórias lindas. E me deixam o vazio da lembrança, sem cheiro, sem cor, sem sorriso. Debulham-se. Minhas forças psíquicas, físicas e emocionais se esgotam. E antes mesmo que eu termine a minha oração e bem antes que eu te encontre, de tanto escorrerem, meus olhos, finalmente se fecham, e eu durmo.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Só um bolero

Cerro-me, os olhos
e transporto-me.
Danço um bolero
e me entrego.

Fixo em teus olhos
e encontro-me.
Danço um bolero
e me desintegro.

Enxergo-te, sem olhos
e despedaço-me.
Danço um bolero
e me reintero.

Despedaça-me, os olhos
e reintero-te.
Danço um bolero,
e te enxergo.

Fixa-me, nos olhos
e desintegro-te.
Danço um bolero
e te entrego.

Encontro-te em meus olhos
e transporto-te.
Danço um bolero
e cerro-te. 

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Lorde

Ouça, enquanto lê...

Andava por um vale verde
com árvores frondosas dançantes.
Balançávamos, as árvores e eu, ao som da brisa que passava.
Fui caminhando até avistar uma fonte.
Tinha sede. De água e de amor.
Inclinei-me sob a estátua marmorizada.

Quase afoguei-me, no susto,
quando, de repente, a estátua daquela princesa estava a me dar bom dia.
E a me dizer que eu deveria olhar pra cima, se quisesse achar o que procurava.

Andei mais um pouco e vi esquilos brincando nos galhos de árvore.
Cansado, deitei-me num banco a contemplar o céu.

Surgiu, então, um enorme pássaro.
Lindo, com olhos vermelhos de rubi;
seu bico amarelo que sorria o mais belo sorriso;
com algumas cicatrizes prateadas e outras douradas;
e suas penas laranjas, como se ardesse inteiro em chamas,
mas isso não o parecia incomodar.

Veio voando, mais macio que uma tempestade.
E veio em revoada de volta pra mim,
mesmo sem nunca ter estado ali.

Eu poderia estar apavorado,
mas as estrelas de seus olhos diziam que não precisava.

Me acalmei e me entreguei.

E se alguém, hoje, me procurar e não me encontrar,
com toda certeza, sabe que estou buscando o vale, onde posso agradecer à princesa de mármore.
E onde posso voar,
com o coração iluminado
pelo meu dançante pássaro vermelho, laranja e amarelo!

Baseado em Lorde - Yellow Flicker Beat, que também é uma boa sugestão para ouvir enquanto lê.